29 de agosto de 2017

Perdoe-me


perdoe-me se não sei viver
se não sei andar
em cima desses muros
ou em cima desse altar

perdoe-me se no meio do turbilhão
eu vou me perdendo
esquecendo o caminho
- que eu nunca soube

perdoe-me por ter entrado assim
como quem nada quer
como quem nada espera
como quem tudo pode

perdoe-me ter mordido a isca
provocado faíscas
e depois partir

perdoe-me se fui covarde
se fui selvagem
se fui tudo ou nada
se fui vã
ou se fui sã

perdoe-me por depois de tanto tempo
eu continuar sendo tão cheia de nuances
e ao mesmo tempo tão vazia

perdoe-me se eu ainda lembro,
mas no fim continuo na minha casca
na minha casa intransponível

perdoe-me por ser eu mesma
por ter brincado de amar
por ter vivido
por ter fingido viver

perdoe-me por não começar
perdoe-me por não terminar

perdoe-me.

(Gláucia Minetto Martins)

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