28 de agosto de 2016

Não tenho você

Não tenho você
E ninguém mais
Resisto pra te olhar e não dizer nada
Ou beijar a ponta do seu nariz tão perfeito.

Nem dói mais ver a foto da tua menina
Porque no estágio em que me encontro
Você é tão distante
Que ela nem mais existe
Nem mais vejo no horizonte
Porque você está quase desaparecendo também.

O teu amor já não tem mais cheiro
Nem sabor
Nem prazeres de tempos juntos
Muito menos conversas completas.
O teu amor está tão, tão distante
Que eu já quase me conformei
Quase aceitei
E quase me desesperei.

Mas sobrevivo de mansinho
Mantendo uma calma que não sei de onde vem.
Acho que é minha intuição
Meu amor próprio
Meu ego
Meu coração
Pedindo pra eu ficar bem...
E querendo que eu me pegue menos
Pensando em como é e como será
Não ter a piedade da tua presença.

Lembro que virão outras pessoas
Mas quero por um instante
Que esses novos sorrisos e amanhãs
Não cheguem até mim
Desejo ficar estática e leve,
Flutuar na minha sublime bolha...

Mas só até isso passar
Até eu entender por que não mereço
Ao menos uma resposta tua...
Até que eu pare de esperar
Que você leia esse poema
E reconsidere a tua vida.

Não suporto as tuas gentilezas
Não quero o teu jeito esquivo de redenção
Eu quero só uma resposta
Uma palavra e nada mais.

Eu quero você
E não posso ter
Apesar de você não merecer nada,
Nem minha atenção.

Eu quero que você entenda
Que não há como voltar
Se você não decidir os teus amores...
E se ficar neste mesmo ponto
Como eu sei que ficará,
Não há como melhorar
Apenas aceite também
E sobreviva
Como eu estou fazendo.

Vá até seu porto seguro
E afague as suas mágoas
Enquanto eu vou criando
O meu próprio porto
Com a plenitude das minhas forças.

(Gláucia Minetto Martins)

14 de agosto de 2016

Sua casa, suas coisas e eu

Vou invadir a sua casa
Fazer incursões em seu quarto
Embrenhar-me pela escuridão desse caminho
Ou claridade dessa ideia
Mais tarde,
Vou observar a odisseia que mostram os teus retratos
Vasculhar os rostos daqueles que ali se encontram
Tomando conta da sua sala
No alto de molduras antigas de madeira
Vou invadir a biblioteca
Com cortinas compridas e pesadas
Roubar os livros das prateleiras
Sentar em sua poltrona acolchoada
E fingir que sou presidente da tua vida
Só depois, irei embora
Não antes de pegar a bicicleta emprestada
E regar os alfaces da tua horta
Seu cachorro vai me ver
E sentirá minha falta

Mas eu volto

Voltarei ainda muitas vezes

Para não ser mais uma estranha

E pode ficar tranquilo,

Voltarei antes que você desista de mim.
(Gláucia Minetto Martins)
Poema inspirado no livro Marina, de Carlos Ruiz Zafón

Sobre casulos

eu não quero pensar
eu me recuso a pensar
como uma revolta à mente e ao corpo
arrasto para longe o “como será”
e guardo o “como foi” em minha gaveta
vou fazer greve de pensamento
disciplinar e equilibrar
a tudo equalizar
quebrar rimas e conceitos
ser quem eu devo ser
fazer o que eu devo fazer
mesmo que o primeiro item da lista
seja acabar com os meus medos
trincar o meu casulo tão bem feito
mesmo que eu não consiga
entender a trama que o teci
vou morder as cordas que a compõem
estilhaçar a membrana de vidro
que reforça a proteção

só espero que quando finalmente sair
o sol lá fora não ofusque os meus olhos
e minha alma translúcida
não ofusque também os teus.
(Gláucia Minetto Martins)

Crescer

Escada da vida — Vera Cíntia
crescer,
ver o tempo passar,
é deixar coisas para trás
pessoas que de repente desintegraram-se,
não mais existem
pelo menos nesse mundo
crescer é observar
é cansar
é limpar a casa e o armário
dar embora tudo que não pertença mais
ao eu que somos agora
e pode até ainda servir
mas não mais nos pertence
não mais nos apetece

crescer é sentir os anos no corpo
mas saber que ainda não se viveu suficiente
para ir além
para ser melhor

é tentar ser alguém mais certo
aos seus próprios padrões
aos seus próprios desejos

é procurar adequação 
diante de tudo que foi
dos anos que voam
dos dias que chegam
da vida que traga a própria vida
chegando ao léu
esperando alguém segurá-la com ambas as mãos
e transformá-la em algo que faça sentido
que ascenda a alma,
simplifique os passos, formas e pensamentos

crescer é deixar de se importar
é aprender a ver tudo mais claramente
e ter mais calma, talvez
mesmo que signifique uma chama a menos
uma juventude tenra andando no sentido contrário

crescer é estar no último degrau da escada
pensando estar ainda no primeiro

(Gláucia Minetto Martins)

Roseira

uma rosa que sangra
amarga os dias do jardim 
amargo gosto do entendimento bruto
das coisas que concluímos de repente
na decepção selvagem da vida a ser apenas quem é
mas que mostra o sol a cada manhã.
sorri e chora o dia-a-dia
cai e dança o dia após dia.

(Gláucia Minetto Martins)

Noite e dia, dia e noite

morre o dia
chega a noite
que abriga seus filhos na face sombria
sussurra segredos íntimos
grita ou canta um hino de sangue
trágico traço das horas
vem a luz do sol
vive o eu
permanecem as boas energias
realizam-se coisas
trilham-se sucessos
morre o dia
chega a noite
contraste brusco
ventania
volta a estrela
a brilhar
a esparramar as mais brandas sensações
chega a noite
contrasta o dia
gira a roda, o moinho
produzindo o que há de ser consumido
fecha-se o ciclo
recomeçam os sinos
as lendas
e as dúvidas
vive o dia e a noite
vive o ser e o não ser
vive-se

além do entendimento
(Gláucia Minetto Martins)

Novamente

fresh air
she said
e eu disse: o que é que há?
de além
que deixa novo?
ela me disse então:
dentro de nós
tudo muda
os olhos mudam
para observar o outro
e desvendar o que há lá fora
mundo novo
dentro de mim
entende novamente o que vejo
conhece outra vez o que sinto!

(Gláucia Minetto Martins)

Bons momentos


guardar um momento
prender-se a um abraço
descobrir o outro
e se apaixonar
vendo nele a sua calma
e a sua alma
que não anula a alma e a calma
dessa outra pessoa
que traz qualidades tão grandes
e defeitos mínimos
para quem se quer bem

(Gláucia Minetto Martins)

Vêm

vêm, quebra a distância
aparece lado a lado
não precisa dizer nada
arranja um jeito
aqui e agora
não deixa nada abalar.
o que eu encontrei
não largo mais.

(Gláucia Minetto Martins)

Controle

Lobo
Sedento por sangue
Amargando a nostalgia da lua
Fio invisível de uma alcateia quase extinta
Perdido na noite
Desgarrado dos semelhantes
Instinto assassino
Sentimento profundo

Menina
Perdida por entre os prédios
Escalando ideias
E solidões
Seu uivo ou seu canto
Fala de marcas
E desejos

Ela chega ao telhado
De uma casa qualquer
Perto da floresta
Pequena reserva
No meio do cinza

O som que sai de sua boca
É triste ou feliz
Não se sabe ao certo
Mas seja qual for a mensagem
Ela consegue ouvir ao longe
Uma resposta
De um lobo perdido
Mas nem por isso partido
Que sabe seus hinos
Procura controle
E encontra em qualquer lugar
Inclusive dentro de si.

(Gláucia Minetto Martins)

Entendimento

me peguei lembrando de você
da tua vida
da pequena parte que sei da sua história
das antigas brincadeiras
da foto no meu aniversário de três anos
quando você roubou doce
como quem não quer nada
pensei também em como tudo acontece
exatamente como tem que ser
do jeito que eu sei que você se entendeu
e entendeu a todos
e então veio nos ver
com a alma lavada
e um pacote de calma e alma embaixo do braço
você estava pronto
um tempo depois
resolveu que não havia mais nada a fazer
e devolveu seu corpo
aos nossos ciclos terrestres
um ano, cinco meses e alguns dias mais
será que dá pra aprender muito?
acho que sim
vai se completando
sendo cada vez mais
olhando por nós
e um dia todos estaremos juntos
entendo a vida e tudo mais
(Gláucia Minetto Martins)


Impossível

mal te conheço
não conversamos nem dois minutos
mas você parece ser alguém
tão em paz
e adulto
calmo como em tarde de domingo
mas com as devidas atitudes
que se prezam…
talvez tudo o que eu preciso
do jeito certo que quis e quero.
é claro que é só uma impressão
e pode muito bem nem ser assim
mas infelizmente não vou saber jamais
não posso saber.
nunca vi caso mais impossível que o nosso!

(Gláucia Minetto Martins)

Navegar


mede-se todo o meu coração
mede-se toda a minha mágoa 
a minha alegria
o meu esforço
o meu inglês
a minha nota
o meu passado
o meu futuro
o tamanho do meu barco.
mas ninguém pode medir nada
muito menos as dimensões da minha mente.
eles não sabem
mas eu vou navegar por aí
partir.
vou levar o meu coração
me raptar
me sequestrar
fugir
porque longe vou encontrar
um novo eu que está a me esperar. 

(Gláucia Minetto Martins)

Tudo que se passa

sinto.
a carne
o estômago
as entranhas. 
o vento
na pele
no rosto.
os olhos ardem
as horas correm
o mundo gira
os eixos se abalam.
cãibra
dor e agonia
depois um pão
na barriga.
a felicidade de ser
de estar
de tomar
de comer
de respirar.
sentir.
viver.
nascer.
morrer.
renascer.
querer.
buscar.
encontrar.
perder.
voltar.
amar.
tanto se passa
que se perde a noção
o fio
a meada.
o coração.
a desilusão.
o cavalo.
o leão.
sobe a estrada
caminha na escada
troca e destroca.
aceita ser o que é
pra dar e receber 
tudo o que a vida pode ter.

(Gláucia Minetto Martins)

Ilha

eu não sei se estou cansada
será cansaço?
ou medo 
que se transformou em escudo ou barreira?
será receio (por medo)?
ou será que encontrei minhas verdades muito cedo
mas sem ter vivido nada,
apenas observando os outros
como do alto
ou de um sofá.
se for isso, então minhas verdades são falsas
mentiras que criei
por causa de mágoas, 
incompreensões de mim mesma.
eu não sei o que eu quero
às vezes me sinto vazia
fechada num pote em conserva
em uma prisão disfarçada de conforto
em uma ilha que finge ser vontade própria.
queria entender o motivo
será que é só por mim
ou deveria mesmo ser assim?
às vezes entusiasmo e alegria
noutras, é como se a minha alma talvez velha 
não gostasse de mais nada
não tivesse mais paciência.
como se a vida quase adulta tivesse chegado
mas pulado o que deveria ter sido.
melhor não pensar em nada
e ir indo e vindo
o entendimento sempre chega
os livros sempre são escritos
a vida sempre se alinha.

(Gláucia Minetto Martins)

8 de agosto de 2016

Quanto tempo falta

quanto tempo falta pra eu te encontrar?
mas te encontrar de verdade...
e não apenas olhar e fingir que está tudo bem...

quanto tempo falta?
pra eu viver minha vida de uma vez
pra eu poder olhar nesses olhos seus
e ficar tão perto que o cheiro é muito forte
e se sente o peito contra o seu, subindo e descendo
e eu abraçada bem quieta e reclusa?

um peso enorme desceu sobre mim
uma tristeza calma ao saber
que você nunca será meu...
um conformismo inédito e quase inexplicável
também pousou no meu coração
e estou simplesmente inerte...

mas a vontade de você não passou
apenas aumentou nos últimos tempos
junto com a certeza de que a vida é feroz
e os dias são amargos
quando não se fez o que deveria.

eu tenho todas as reflexões do mundo
todos os pensamentos bons e maus
toda a alma e toda a calma

mas apesar de tudo
só o que eu queria agora
era estar no meio do seu peito
na solidão do teu abraço
no refúgio do teu eu...

e não vou dizer que um só segundo basta
não, eu quero e é pra sempre
quero romper todas as barreiras que existem
e estar com você.

mas eu sei que essas barreiras são duras demais
e as minhas mãos são muito frágeis
e você não tem o querer suficiente pra pular
muito menos a coragem.

eu vou me conformar
espero que daqui alguns anos
você não se arrependa...
quando eu já for outra
e tiver encontrado outros portos,
outras vidas,
e outros eus.

(Gláucia Minetto Martins)