27 de setembro de 2014

Anos exaustos

Nasci em vinte e quatro de julho
abri meus olhinhos que ainda nada viam
me levaram para casa onde conheci minha irmãzinha
só dormia no colo dela
colo de criança a ninar
ri do barulho do feijão na panela
enquanto mamãe o escolhia
tive meus medos e manhas
cresci um pouco e parecia coelhinho
aos cinco japonesinha com os olhos puxadinhos
ou índia de cabelo preto escorrido
cresci mais um pouco e aprendi sobre algumas coisas
nunca vou saber de tudo
não podemos ter o mundo
agora já vivi uns sete mil dias
onde eu estive todo esse tempo?
quantos sols eu vi se porem
a quantas estrelas cadentes fiz pedidos
quantas verdades tive coragem de dizer
quanta coragem tive medo de viver?
só vivi uns pares de anos
mas sinto que se assim continuar
quando eu tiver trinta mil dias
não serei muito diferente que hoje
com lembranças apenas da infância:
quando se conhece o mundo por curiosidade.
os anos vêm e acha-se que se sabe o suficiente
para-se de acreditar e procurar...
por que a criança explora o mundo
se quando adultos sentamos em cadeiras duras
e vemos o tempo passar apenas respirando?
mas é claro, é sempre tempo de estudo ou de trabalho
todos precisam dos insumos
nesse mundo em que vivemos
quanto custa permanecer vivo?
parece mais certo morrer de fome
sermos nômades pelas florestas
andarilhos pelos campos.
mas os filhos, novas crianças, esperam em casa
então não há caminho
a não ser viver a vida certa e medíocre
e buscar as riquezas do mundo
por entre as frestas que encontramos,
mas só quando há tempo...
porque há prova para estudar
e na segunda volta o trabalho
a faculdade, o curso.
depois que eu me formar
depois que eu me aposentar
prometo viver o que eu quero
se os ossos fracos permitirem
e se o dinheiro que gastei
não fizer falta nesses últimos anos de vida

(Gláucia Minetto Martins)

22 de setembro de 2014

Sobre o nada que é agora

Eu gostava do seu beijo
de brincar com o seu queixo
de estar no seu abraço
no perfume
no aconchego

Eu gostava do que você era
das promessas que eu fiz a mim mesma

Gostava tanto
da sua pele clara
do cabelo onde eu enroscava os dedos
do riso e do olhar
das coisas que falávamos
das conversas sobre nada
e sobre o nada...

Seus cabelos agora cresceram
ora, o passado chegou para nós

Há quem não acredite
mas não é que eu sinta tanto
pois eu estive calejada

Me vêm a pena pelo que você abriu mão
por motivos tão vazios
sem juras nem garantias

Espero que nós dois
sejamos pessoas melhores
universo em expansão

(Gláucia Minetto Martins)

20 de setembro de 2014

A noite lá fora

A noite chegou
Lá fora o mundo brilha e chora
Há quem se arraste pelo chão
Há quem beba champanhe

Aviões passam, vêm e vão
Destinos traçados, caminhos marcados
Pássaros perdem suas penas
E vêm parar no meu jardim
É noite lá fora e aqui eu escuto suas músicas,
Cantos de quem vê o mundo lá de cima
A voar sobre as nossas cabeças

Há quem diga que o mundo é um grande abismo
Há quem siga os livros e histórias
Para alcançar uma nova vida
Há estrangeiros trabalhando em cozinhas
Fora de casa, como a noite lá fora
Há quem nade em piscinas de dinheiro
Há quem brigue por uma vaga

O grão de milho endurece na espiga
Cumpre seu papel
Uma viagem pelas missões
Malhas invisíveis do gênero humano
Malhas invisíveis da existência animal

É noite lá fora
É estranho e sombrio
Quando as coisas dormem
E outras acordam
E quando o sol acorda também
O mundo renasce
Brincando de ser
Ser sublime

(Gláucia Minetto Martins)

8 de setembro de 2014

A faca e o queijo


"In my dreams, I climb the hills I see
and let a gentle breeze lead me to
plains I once have seen and
Clear blue sky, I swim in lakes I find
I build a house right there
that you can't take.. never take away"

me faça louca
me faça bem
fica em silêncio
e olha pra mim
me joga uma faca
eu vou cortar essas cordas
me dê a chave
eu quero abrir a porta
e correr pelos campos
eu quero ser
eu quero sentir
à terra incorporar a minha história
construir meus abrigos e portos
plantar trigo e tanto mais...
ser,
e ver.

(Gláucia Minetto Martins)

4 de setembro de 2014

Muralhas


é preciso desprender-se
das amarras do tempo
das barreiras e muros implacáveis
das jaulas da história
dos olhares em ódio
das mágoas e medos
do corpo que é cápsula
do lugar onde vivemos
para não morrer a cada dia
no conforto interminável
das horas corridas
cuidando do que não é eterno.

(Gláucia Minetto Martins)

Labirinto


Nos meus sonhos eu vi um caminho
Feito de tempo, poeira, pedras e lágrimas de alegria.

O tempo nos leva passo a passo
A poeira é o que resta do que fomos,
Mas compõe o que somos...
As pedras hora estão no sapato
Hora em cima dos contratos,
Para que eles não sejam levados pelo vento.
As lágrimas de alegria
São o contentamento em estar vivo
A mais sublime alegria em estar bem
Apesar de tudo...

Esse caminho é um labirinto
Onde esperam uma fada e um minotauro
Escondidos em jardins e campos de tulipas.
Será preciso matar o monstro?
Será possível despistar o monstro
E brincar com a fada.

(Gláucia Minetto Martins)