24 de julho de 2014

Sessenta dias sem chuva

imagem

o ar está seco
dói ao respirar
o horizonte ficou cinza
parece luto pela natureza

moro numa cidadezinha
a mim é às vezes grande,
às vezes pequena
contam-se nos dedos os prédios daqui
mas é tudo sempre tão sujo
mania urbana, tudo morto...

na janela do ônibus todos os dias de manhã
ainda posso ver o nascer do sol
fazendas, pastos e eucaliptos ao longe
são brechas no asfalto insistente

tudo tão triste
o céu hesita em desabar 
deve estar engolindo o choro
até o filme acabar...

perdi a conta dos dias que assim se passaram
uns sessenta, acho eu
nesse meio tempo as nuvens ficaram escuras
o sol se escondeu
mas só veio o chuvisco pra brincar com o chão...
enquanto eu espero, aqui embaixo
só me vem esse frio

mãe natureza, pai do céu, leis da vida
por favor joguem fora o conta-gotas
pulem de vez nesse caminho
vivam tudo de uma só vez
não hesitem, nem temam
chovam tudo que há pra ser...

(Gláucia Minetto Martins)

4 comentários:

  1. O mundo constituído de maioria absoluta de água, e as pessoas constituídas na maioria absoluta de líquido. Quando o estio se prolonga, tudo parece definhar. O mundo não é mundo sem chuva. Belíssimo poema numa imagem muito bela.

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Lucas. ^^
      É tão triste ver a natureza sem chuva.

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  2. É contagiante quando uma alma poética apenas em contato normal e cotidiano com natureza, ou a própria realidade mesmo, consiga escrever de forma tão harmoniosa e entrosada. Parabéns!

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