24 de julho de 2014

Sessenta dias sem chuva

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o ar está seco
dói ao respirar
o horizonte ficou cinza
parece luto pela natureza

moro numa cidadezinha
a mim é às vezes grande,
às vezes pequena
contam-se nos dedos os prédios daqui
mas é tudo sempre tão sujo
mania urbana, tudo morto...

na janela do ônibus todos os dias de manhã
ainda posso ver o nascer do sol
fazendas, pastos e eucaliptos ao longe
são brechas no asfalto insistente

tudo tão triste
o céu hesita em desabar 
deve estar engolindo o choro
até o filme acabar...

perdi a conta dos dias que assim se passaram
uns sessenta, acho eu
nesse meio tempo as nuvens ficaram escuras
o sol se escondeu
mas só veio o chuvisco pra brincar com o chão...
enquanto eu espero, aqui embaixo
só me vem esse frio

mãe natureza, pai do céu, leis da vida
por favor joguem fora o conta-gotas
pulem de vez nesse caminho
vivam tudo de uma só vez
não hesitem, nem temam
chovam tudo que há pra ser...

(Gláucia Minetto Martins)

21 de julho de 2014

Absorção

Viajei pela fortaleza dos teus olhos
Refleti-me no espelho cromado,
Luzidio, do teu olhar.

O formato excitante dos teus cílios,
Magia cigana.
O bater das pálpebras,
Hipnose em fogo.

Às tuas lágrimas sedutoras
Me entreguei.
A paixão à vida a estalar
Na energia envolvente do teu olhar,
A me intrigar, indagar,
Convidar.

Os teus olhos, mesmo quando calmos
Movem montanhas, meu bem.

(Gláucia Minetto Martins)

6 de julho de 2014

Pedido


O mundo todo,
O mundo todo
Menina, a gente andava pelo mundo todo...
Eu, feito de palha, espantalho
Pra levar embora as coisas más
Você, feita de céu
De flor e cheiro de lar.
À tardinha a estrada era feliz
Os nossos pés percorriam de vagar
Você, alegre, a cantar um mundo doce
E eu, bobo, a te olhar.
Nossa casa era nenhum lugar...
Parece em outra vida
Que o nosso filme se fez
Parece perdido em outro lugar
O rastro que o teu vestido deixou.
Esse sertão não é o mesmo sem você
Feito espantalho, eu ainda sou
Volta a ser minha menina
Volta pra mim, a tua casa
Quero encontrar nos teus olhos de mulher
A menina, dançando ao vento...
Me traga todas as suas cantigas.

(Gláucia Minetto Martins)