30 de outubro de 2013

O homem e a bruxa


Certa vez, um homem amou uma bruxa
E a bruxa dizia amá-lo mais que tudo
Ela fez então uma ilha só para eles
No meio do mais distante oceano,
Circundada das mais profundas águas.
A ilha era bela e cheia de paz
O homem ouvia o cantar dos pássaros e da água
A bruxa era muito feliz e só queria olhar para ele.
Mas chegou o inverno e não sentiram frio
O sol continuava a brilhar persistente.
Chegou a primavera e nada mudou
Pois lá sempre havia flores.
Veio o outono e nenhuma folha caiu
Veio o verão e era como se o tempo estivesse parado.
As estações continuavam a ir e vir
E o homem então sentiu falta dos amigos
Das conversas sobre jogos e dinossauros,
Livros e piratas
(Afinal sempre fora uma criança)...
Ele não tinha mais sua cama confortável
E já sentia falta do trabalho
Mas a bruxa não sentia nada disso
Só o olhava e espantava até uma mosca de perto do seu amor.
Homem e bruxa perderam a contagem do tempo
Já não percebiam nem mesmo o cantar dos pássaros
(A bruxa na verdade nunca parou para escutar nada além da voz do homem).
Ele então pediu à ela que fossem embora
Retomassem a vida normal - eles ainda se amariam 
Mas a bruxa recusou
Disse "esse é nosso paraíso, meu bem".
Um dia passou um avião
O homem se viu escrevendo help me na areia
E fazendo polichinelo para ser visto
E a bruxa só na espreita...
O avião não viu ninguém e partiu.
Muito mais tempo passou
As linhas do rosto do homem ficaram fundas
E o rosto da bruxa também caiu um pouco.
Em uma tarde mais quente que o normal
A bruxa não acordou da soneca que tirara
E o homem compreendeu que chegara a hora
Chorou pela amada e a colocou no mar
Para que as ondas a levassem onde tinha que ser.
De repente tudo começou a tremer
Árvores caíram e o mar ficou agitado
A visão do homem ficou turva
E quando percebeu estava em casa novamente.
Depois de tanto tempo, a mágica da bruxa se desfizera
E o homem estava livre
Mas ao ir ao banheiro se deparou com um espelho
E levou um susto com sua velhice.
Compreendeu então, com tristeza
Que amara sua bruxa, mas com ela, fugiu da vida.

(Gláucia Minetto Martins)

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