27 de abril de 2013

Julguei te conhecer


Juliano limpa a boca com o guardanapo
Que Clarisse escreveu seu telefone
Ele amassa, abre, rasga, joga fora
Faz careta e faz amor 
Com a vizinha triste do andar de cima.

Juliano não quer Clarisse jamais
E ela não quer que ele fuja dela
Ele corre sempre que a vê na esquina
Ou na porta do bar, sorrindo feito tola
Pra um moço sem coração.

Juliano é juiz da própria vida, ele diz
Se culpa ou absolve o crime de ser ele mesmo
Vinte e quatro horas por dia.
Mas Juliano é feliz do seu próprio jeito
Vivendo estacionado na conformidade da cadeira do bar
Da cadeira da repartição
Da cama e da privada.

Clarisse vive a vida cheia de emoção
Chora por qualquer coisa
Contorna mentalmente todo o erro do mundo
Quer tudo o que há de perfeito
Dispensa a covardia e o medo.
Mas Clarissa é negação
e Juliano é aceitação de tudo o que é feio.

Amor pra Juliano é coisinha indiferente
Pra Clarisse é sinônimo de vida
É sentimento que ela quer encontrar nele
E ele ignora, porque diz, agora não é hora.

Os dois se encontram na rua
Clarisse insiste e escreve o telefone na cabeça de Juliano
Cantando trinta e cinco vezes os números viciados
Três - seis - dois - quatro - nove e assim por diante...
Assim você não vai fugir de mim
Porque vai lembrar da minha voz
E a música dos meus números vão me cantar pra ti
Vai esfolar a mente de exaustão
E você vai discar só pra ver se aliviar
E vamos conversar e descobrir que o destino nos espera.

Clarisse volta pra casa radiante 
Porque sabe que o telefone vai tocar
Dorme sorrindo, fala sorrindo
Sorri pra'quele homem que ela tanto quer
E quis só de ver do nada no meio de todo mundo
Paixonite assim, bem rapidinho.

E não é que quando a gente sabe, sabe mesmo
E não fica feliz à toa?
Uns dias depois o telefone tocou
E a conversa acabou fluindo
Porque Juliano é chato mas não é de ferro.

E naquela noite a vizinha do andar de cima ficou sozinha
Juliano sorriu no escuro quando foi pra cama
E sorriu mais um pouquinho no outro dia
Quando Clarisse lhe olhou de novo pela porta do bar.

Juliano acabou querendo e assim amou
Aceitou a insistência e até que gostou
Deu a mão e andou os primeiros passos.

Mas ele não deixou de fazer careta, de ter pouco coração
Não deixou a conformidade da cadeira do bar
Da cadeira da repartição
Da cama e da privada
E Clarisse quis saber
Eu julguei te conhecer
Julguei ter lhe mudado
E tê-lo feito mais humano.

Juliano a olhou bem fundo nos olhos
E disse a ela que não há nada que mude sua miséria,
Que era seu traço mais humano.
E como ela julgara conhecê-lo
Se nem mesmo a gente conhece a si próprio?

(Gláucia Minetto Martins)

Um comentário:

  1. Será mesmo que depois de tanta miséria assumida, Juliano é realmente feliz? Desconfio que sequer sabe o que vive...
    Bravíssimo, Gláucia. Surpreendente!
    Beijocas!

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