1 de fevereiro de 2013

Apenas "ela"


Eu estava na soleira da porta, fumando um cigarro e pensando em qualquer miséria quando ela chegou. Nunca algo me foi tão inesperado. Apertei os olhos para ver se era mesmo quem eu pensava, mas é claro que eu não me enganaria. 
Ela estava completamente diferente. Era uma típica figura de veraneio com sua tanga estampada, blusinha frente única, sandálias de salto, bolsa e chapéu de palha e óculos de sol. Eu sabia que por trás daquelas lentes escuras haviam olhos lilases e brilhantes e que o chapéu escondia cabelos loiros tão claros que eram quase brancos. 
Ela parou na minha frente e não falou, apenas sorriu. Um sorriso feito convite.

***

No passado, ela fora meu mistério, minha hipnose. Arrancou minhas forças feito quebrante. Eu era tão jovem, ingênuo, inocente e tão tudo o que há para ser quando se é tão jovem.
Fui pego de surpresa em um dia vazio de adolescência e viajei por muito tempo no mundo dos sonhos, um mundo feito de luzes coloridas que às vezes caem em sombra. Pairei como em conserva durante muito tempo, o qual nunca pude definir. Flutuava de braços e pernas abertos no meio do nada e apenas a mente funcionava, perdida em lugar nenhum.
Às vezes tenho a certeza de que minha identidade se esvaía aos poucos, que meu corpo era como uma casca; um casulo que se abre para deixar algo mais bonito passar. Pois foi no momento mais crítico que senti alguém segurando minha mão, e foi como se tudo o que eu deixava escapar voltasse ao meu corpo com um baque. 
Com esforço, virei a cabeça, e vi aquela mulher com feições brandas e puras, atravessando meus olhos com os dela e eu soube que ela lia, então, todo o meu eu. Já não havia segredos. 
Fechei os olhos e concentrei-me no ar que se movia dentro de mim e senti-me mais vivo que nunca.

***

Quando percebi, já estava em outro lugar, deitado em lençóis brancos e macios, mas não havia chão, nem paredes ou teto. Apenas uma névoa branca de reflexo roxo. Ouvi um som angelical e só então percebi que ela ainda me fazia companhia. Ela estava cantando, mas não pronunciava palavra alguma. O som que escapava de sua boca era como o de um instrumento de som melancólico e quase materializava-se na névoa, cobrindo tudo.
Seus cabelos eram daquele tom quase branco que só encontramos no mundo fantástico, tão longos que tocavam os tornozelos. Os olhos, eu ainda não identificara a cor, mas absorviam-me até o último pensamento e sensação. Quando ela parou a música para tomar fôlego, pude ver que os seus lábios tinham uma leve inclinação que por um momento cheguei a pensar que era um sorriso, mas eram os belos traços de sua feição.
Ela trajava tecidos branquíssimos como os meus lençóis, vestido cortado como o de uma fada branca e purificadora. Seria ela uma fada? Não me importa o que fosse, ela apenas excitava-me do início ao fim, em todos os sentidos, e eu soube assim seria até a morte.

***

Essa foi a primeira de muitas vezes que a encontrei, ou que ela encontrou-me, para ser exato. Eu não mais pairava no meio do nada, encontrava-a prontamente em meus sonhos. 
Ela nunca falou ou me tocou, a não ser nas mãos. Apenas cantava ou ficava estática, me olhando por um longo tempo com os olhos que enfim, identifiquei como lilases. Depois me pegava pela mão e me guiava por algum caminho que me levava de volta ao mundo real, para viver mais um dia. 
Eu encontrava-a em sonho, mas sabia o quanto ela era real... Nenhum efeito psicodélico ou fruto da imaginação.
Eu queria perguntar seu nome, mas no mundo em que nos víamos, eu não tinha forças para falar. Restava-me apenas ansiar pelos nossos encontros, e durante o dia ela era minha fada sem nome, minha lembrança e saudade, mas só durante o dia, porque à noite, em sonho, eu não precisava de nomes ou certezas, apenas do seu rosto a me fitar. Eu vivia em função dela, e sabia que a insônia jamais me atingiria. 
Mas houve um tempo em que os sonhos ficaram mais escassos e eu voltei a sonhar também com outras coisas normais. Assim, o fim ficou próximo e um dia ela já não estava mais lá. Eu sabia que ela nunca mais voltaria, e o tempo passou. 

***

No dia que ela voltou e me sorriu, com os óculos de sol e chapéu de palha, meu coração virou geleia e minhas entranhas contorceram-se de ansiedade. A minha fada voltara, ela estava ali para mim. Eu não a via em sonho, e sim em jeito e traje de mulher comum. Mas é claro que ela não era como as outras. 
Com sua volta, convidava-me a voltar para ela. Agora eu tinha escolha, ela não segurava minha mão e me guiava, e sim prostrava-se diante de mim esperando minha palavra, o meu sim.
E a minha aprovação seria inevitável, eu jamais esquecera-a. E eu pude saber que ela escolheu-me quando me encontrou pairando no meio do nada, que declarou-se guiando-me, e assim pertencemos um ao outro nos meus sonhos. Eu sabia que ela me escolhera também quando voltou naquele dia, disfarçada em seus novos trajes, discreta e feliz, esperando por mim. 
Ela estava ali, não era mais sonho ou lembrança. Eu ainda não sabia o seu nome ou a vira pronunciar alguma palavra, mas ela estava ali de volta, muitos anos depois. E eu soube que não iria mais embora quando fui eu que peguei em sua mão e guiei-a pelos meus próprios caminhos.

(Gláucia Minetto Martins)

2 comentários:

  1. Gláucia, que conto lindo.
    Belíssima a forma que a fada, ou seja lá que ser é esse, volta, se comunica e se entrega.

    Amei essa frase "porque à noite, em sonho, eu não precisava de nomes ou certezas, apenas do seu rosto a me fitar"

    Muito bem escrito.


    Tou de espaço novo, guria. Visita lá!
    http://ape-trechos.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Obrigada, Marcelo. ^^
      Que bom que você gostou do conto. Sabe, nem eu sei quem/o que é esse ser! hahaha

      Pode deixar, que eu vou passar por lá.
      Volta sempre aqui no blog.


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