3 de janeiro de 2013


Eles eram almas gêmeas, diziam
As metades da laranja
A tampa e a panela
Que fazia poção do amor.

Eram também os contrastes
O fogo e a água
O sol e a lua
A terra e o mar.

Não queriam nada mais que si mesmos
Mas um dia,
Toc toc fez a porta da frente
Era a Realidade, nada faceira
Queria um pouco de açúcar.
Por fim entrou e aceitou uma xícara de café.
Acabou ficando
Era hóspede, agregada.
E nem mais dividia o aluguel. 

A cozinha foi ficando bagunçada
A tampa e a panela separadas
No armário revirado.
E os contrates não tinham mais valor.

Um dia a mocinha quis um basta
Realidade, coitadinha
Acabou caída no meio-fio
"Aqui não tem mais anfitrião"
E a porta bateu em sua cara.

Mas um buraco ficou
As metades da laranja sentiam falta
Da hóspede, inicialmente indesejada.
É que sem ela, as coisas poderiam ser melhores
Mas não faziam sentido. 

Mas pra quê se preocupar
Se nossa querida amiga Realidade
Sempre acha o caminho de volta?
Toc toc, olha lá ela de novo
E dessa vez bem recebida
"Olha lá a Rê!"
Ganhou abraço e até flores.

Rê era feia às vezes
Sua pele era dura e ressecada
Mas quem não precisa dela?

Teve cerimônia pra incluir
Nossa Rê no casamento.
No grande dia,
Ela assinou seu nome inteiro 
"Realidade Necessária".

(Gláucia Minetto Martins)

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