30 de janeiro de 2013

Vai


Nesse dia que chega
Eu te desejo todo o amor do mundo
Todo o sucesso
Determinação e honra.
Que você possa ser sempre 
O homem que pode realizar 
Seus sonhos e planos
E nunca chegue lá na frente
Pensando no que poderia ter feito diferente.
Então, eu quero apenas
Que você vá em paz
Que fique sempre em paz
E que pra tudo seja paciente.
Me desculpe por ter dito tantas vezes
Que eu queria que houvesse nós dois,
Mas nunca ter dito a você.
Vai,
E não olha pra trás.

(Gláucia Minetto Martins)

29 de janeiro de 2013

Entrega


Olhei-te, lá de cima
diria Anitelli, "da pedra mais alta"
mas não sou sereia 
nem você tão disposto
a virar conchinha
vencendo a altura
pra me ver.

Olhei-te e tentei concentrar-me
no que ando vivendo pra realizar.
Nas mãos, o medo
a vontade, a graça da entrega
de algo tão involuntário.

Na mente e no corpo
a sensação de cumplicidade.
Estrelinha microscópica
no céu da Arte.

(Gláucia Minetto Martins)

28 de janeiro de 2013

Ele e Maria

Wheatfield, Van Gogh

Maria, calma, minha filha
Que o teu homem já vêm.
Vai rimando os causos da tua história,
Que o teu homem já vêm.
E ele vêm pra que tudo seja belo, Maria.
Dia após dia ele virá,
Grande amor que lhe tem.
Há hora nenhuma que ele não lhe queira
E diz que és bela feito índia.

Sente-se o afeto a milhas daqui
Feito brisa que chega à tardinha...
O amor a viajar, 
Vivo, tão grande que és.
Sinta-o, Maria, ele vêm para você
Vai correndo e segura bem forte...
Tem dessas o que nunca há de partir.

Ambos são tão jovens, Maria
E sempre hão de ser.
Ficam pasmos os que podem vê-los
Juntos, assim, radiantes e repletos
Nas campinas, caminhando.
Longe, longe, mas perto, sim
O que é mau pra quem tanto ama?
Para casa é sempre perto.

Senhor, que tanto vê, abençoa-os.
Feliz, Ele o faz...
Raio de sol ganha mais brilho lá no céu.

Sempre assim será, Maria
Tudo o que constroem 
Alma tem dentro de si.
Aos teus filhos que virão,
A felicidade já os atinge.

Bom é o amor de vocês
Cada qual, de mãos dadas,
Deixa pegadas no solo da História.
Beijos ternos para sempre selarão
O que vocês são um ao outro.

(Gláucia Minetto Martins)
26 - 28/01/2013

23 de janeiro de 2013

Por que não Brasil?

Arroz e feijão
Orgulho perpétuo
Pincel em tinta verde
Pintando detalhes
Na aquarela infinita
Dos causos, arte e beleza
Do meu Brasil.

Pátria, pois admiro-lhe
És imensa e sofrida
Seca, ao norte
Redentora, ao sul.

Pátria marcada 
Pelos pés sujos de poeira
Da terra rachada, fome e suor.

Chagada ao decorrer dos séculos.
Vida rural, sofrimento excluso
Normalizado atraso do progresso.

Pátria.
Apesar, nobre.

Retalhos constroem a tua história
Repressão, preconceito e chicote
Mas, nas horas mais tristes
E em exílios mais profundos,
Mostra-nos as composições
Que colhem nosso orgulho
Melodia que voa no céu da emoção
E, mais devagar, no céu da justiça.

(Gláucia Minetto Martins)

16 de janeiro de 2013

Dignidade

Em geral, nos preocupamos com a brevidade da vida. Então eu me pergunto, pra quê gastar tanto tempo na vida alheia, se a nossa nos espera desde sempre?
A humanidade tem aspectos realmente podres, sujos e qualquer outra coisa que remeta desprezo. É a nossa natureza, mas não é dominante.
Meu bem, esqueça essa inveja e aquieta a coceira da língua, porque você pode amenizar os aspectos ruins dessa nossa personalidade, tão individual e também comunitária.
Portanto, vença tais defeitos e apaga o fogo de tanta picuinha, porque, afinal, a vida pode ser tão curta quanto dizem, e enquanto ela passa você pode estar espiando e estragando a dos outros, enquanto endurece ainda mais seu coração. 
Sejamos realmente dignos de honras em nosso funeral, que fica mais perto a cada segundo.
(Gláucia Minetto Martins)



"...já não mais amor"

15 de janeiro de 2013

O questionário da zebra - Shel Silverstein




Perguntei à zebra
Você é preta com listras brancas?
Ou branca com listras pretas?
E a zebra me perguntou,
Você é bom com maus hábitos?
Ou você é mau com bons hábitos?
Você é barulhento com momentos quietos?
Ou você é quieto com momentos barulhentos?
Você é feliz com alguns dias tristes?
Ou você é triste com alguns dias felizes?
Você é limpo com algumas maneiras sujas?
Ou você é sujo com algumas maneiras limpas?
E assim foi e foi e foi 
E foi e foi e foi.
Eu nunca mais perguntei a uma zebra
Sobre listras
Novamente.

(Por Shel Silverstein)


Repost: O outro lado das memórias póstumas


Estou andando pela areia da praia nessa manhã vazia... Estou vendo o bater de asas no céu azul, ouvindo o choro do vento e o sussurrar do mar. Ele me chama para fazer parte dele, vagar pelos sete mares, ostentar seu azul nas ondas nervosas. Ele quer que eu o seja, e aceito o seu convite. Logo serei ponto de luz nas trevas ondulantes. É o alívio.

Talvez você nem saiba o quanto ainda vive dentro de mim. É algo infernal, cruel, quase doentio. Meu coração pulsa me trazendo vida, e o som de cada batida é seu jeito de gritar teu nome. Meu coração chora por você. Minha boca se fecha por você... Exílio das tagarelices do dia-a-dia, só possíveis ao seu lado.Seu eu é meu eu, discreto e forte, que nunca desabita meu corpo, meus pensamentos. Você vicia, você não me abandona, mesmo a sua mão estando tão longe da minha. Quando fecho os olhos sinto sua presença. Quase posso te ver vindo ao meu encontro, como antes. Meu corpo inteiro chama por você.
Eu poderia estar de novo ao seu lado, rindo de nós mesmos, rindo de sua timidez, de seu rosto corado. Eu poderia estar te dando a mão, mexendo em seu cabelo, te apertando em sua indecisão, como adorava fazer, só pra deixar seu querer mais concreto. Eu poderia, eu queria ver teu rosto marcado, surrado, cansado, e fazê-lo contrair-se em risos sem sentido.
Queria te ouvir andando pela casa, e então dormir em paz, com a segurança da tua presença... Queria ainda, amparar esse teu abandono em que você se largava naquelas tardes vazias, e eu sei que apenas minha presença não lhe bastava. Não bastava nem a mim... Era a morte esse exílio torturante.
Queria poder me afastar de você novamente, só para reviver a beleza do reencontro, do olhar mais completo que você me deu, na última noite. Quero morrer de novo contigo, em febre alucinada, abandonar-me junto a ti. Queria estar com você quando seus olhos se fechassem. Queria ver teu corpo definhar como agora, ser o verme que te acaba.

Não... Prefiro continuar... Manter-me carne e osso, pois se não a mim, a quem dependerá a tarefa de eternizar essa história aqui, e também longe da areia dessa praia? 

(Gláucia Minetto Martins)

Sobre as coisas que eu lhe disse



Pela janela do ônibus, os prédios ocuparam o lugar da cidade da minha memória, da minha infância.
Aqui, em cada curva, um acidente. Lá, em cada curva, um passarinho. Um bando, brincando de interior.
Nas ruas, o trânsito já batido. Lá, "o centro tá parecendo São Paulo".
Se desvio o curso agora e for pela estrada, sou despedida, mas encontro o passado. Porém, encontro a cidade, a rua... E não a casa, que já se foi.
Sobre as coisas que eu lhe disse enquanto a nossa vida se formava, parece-me que se foram. Eu falava muito melhor na teoria.
Sobre as coisas que eu lhe disse, as quais sempre acreditei. Esqueci-as, mas estão cravadas em algum lugar dentro de mim.

(Gláucia Minetto Martins)

14 de janeiro de 2013

Fogo e vida


As coisas passam rápido
E outras vão embora ainda mais cedo.
Na memória 
Há uma cumplicidade sem começo
E ainda sem um fim

Um olhar perdido,
Qualquer beijo meio tímido...
Mas que ficou... 

O tempo passa,
Como quase tudo o que há no mundo.
Quando eles se veem, se encaram
Ela, tímida, quase nem cumprimenta
Mas quer morrer depois.

Ele acha-a linda...
Sempre achou...
E encanta-se na sua presença.
Ela o vê assim e se enche de alegria
Como fogo no âmago de sua alma
E ela quer vivê-lo de qualquer forma.

Ela sente que algo os prende
Que juntos tudo ficaria mais bonito
E mais vivo.

Ela vê-se reconfortada
Com o jeito que ele vive
E espera, lá no fundo,
Que ele possa ver tudo o que ela sente
E que, um dia, pois ainda há tempo,
Eles possam entender-se.
Seria perfeito, ela diz.

(Gláucia Minetto Martins)

12 de janeiro de 2013

Perdão


Pedir perdão é necessidade de afeto,
Reconhecimento do que traz o mal.

Perdoar é ainda mais necessário...
Perdoar é amar
É abraçar com brandura
E purificar-se diante das feridas,
Mesmo ainda abertas.

O perdão é mais bela forma de amar
E talvez por isso seja tão difícil.

(Gláucia Minetto Martins)
.

11 de janeiro de 2013

Ela



Ele ofereceu-a todo o amor
Todo o seu bem
Ela não quer nem saber o quanto
Pisoteia-o com seus 100 kg de coração

Ela diz amar mais
Diz ser só dele
E assim vai

Assassinando os bons modos
Só quer saber de ser 
Tudo o que ele pode querer.

(Gláucia Minetto Martins)
.

8 de janeiro de 2013

Quando o mundo acabou

No dia em que o mundo acabou, fiquei pensando que naquele momento muitas pessoas estavam abrigadas em lugares considerados seguros, remoendo planos de sobrevivência arquitetados há muito, conforme vi uma vez, na tevê. 
Eu pensei em como, em qualquer situação, nós somos tão frágeis, e em como o medo vive em nós... Na maioria das vezes, indeterminado. Mas está lá, e nesse caso, estaríamos indefesos, e assim, a destruição, se realmente viesse, seria irremediável.
Mesmo não acreditando no fim, não pude deixar de pensar nas coisas que eu queria fazer, nas perguntas que não ultrapassaram a barreira dos meus lábios. Mas eu sabia que, se qualquer tempestade ou coisa parecida chegasse, eu correria para o abraço da minha família, porque posso ter limitado algumas vontades, mas é o amor é que importa, e este eu conseguira sentir e demonstrar.

(Gláucia Minetto Martins)

 "O que você estava fazendo quando o mundo acabou?"
.

7 de janeiro de 2013

A casa


imagem

além dos campos
que você pode ver ao longe
além das campinas,
há uma casa
e há um jardim.
há rosas vermelhas,
flores brancas e amarelas.
há uma casa com cerca,
com amor
com as janelas abertas
com um casal feliz...
com a árvore mais bela.
além das campinas
há uma casa onde pode-se viver
olhar pro céu
pro telhado
pra janela do sótão
e pode-se amar sem medo
rolar no chão e rir
feito criança.
nessa casa
há um casal
com trajes antigos e sorrisos no rosto
eles se olham
se afagam
se amam.
além dos campos
das campinas
do seu olhar
da sua teimosia
além dos limites do corpo e da mente
há uma bela casa
que foi construída com os tijolos da eternidade.
gire a chave na maçaneta
e seja feliz
nesse lar que você precisa encontrar
dentro de si.

(gláucia minetto martins)

Nós por nós, em nós



vai saber
quantas vezes você pensou em mim
e quantas vezes eu pensei em você

vai saber de quantas em quantas horas
meu eu te incomodou.
e as horas dos meus dias
que eu dedicaria ao nosso nós
que já não existe

vai saber os nomes pelos quais
você me chamou secretamente
os momentos que passamos juntos
nos seus sonhos e nos meus

vai saber do nosso futuro
da nossa casa já vazia
abandonada onde sempre esteve
que é no campo criado
pelos nossos pensamentos

nós nos casamos numa tarde ensolarada
lua-de-mel com todo mel
que a lua oferecia.
nós nos casamos em fantasia.

vai saber quantos filhos nós teríamos
e quantos por quê responderíamos
educando nossas crianças

vai saber quantas músicas você ouviu
reconstituindo tudo 
cada célula
cada átomo
ligados a mim
a nós...
nós,
construindo nós.

(gláucia minetto martins)

4 de janeiro de 2013

O que ficou, o que me fez ser




Eu ouço uma música que abre um buraco no peito. Eu me lembro do que fui, quando tudo era tão natural. Eu ouço e sinto a melodia rasgando as camadas que construí por resistência... Mas uma resistência a nada, talvez aos anos que passaram.
Eu posso ver o abismo em que os dias ficaram enterrados, encobertos pelo tempo. A música revira o que foi, o que eu quis ser e o que eu serei.
São amores perdidos, idades e sentimentos que não voltam... Ilusões doces e puras que preenchiam os dias belos da transição das épocas de nossas vidas.
Ouvir certas músicas me trazem esse sentimento. Saudade. Nó na garganta e incômodo no coração. E, mais além, quase invisível, a vontade adormecida de um beijo ou abraço jamais recebido.

(Gláucia Minetto Martins)

3 de janeiro de 2013


Eles eram almas gêmeas, diziam
As metades da laranja
A tampa e a panela
Que fazia poção do amor.

Eram também os contrastes
O fogo e a água
O sol e a lua
A terra e o mar.

Não queriam nada mais que si mesmos
Mas um dia,
Toc toc fez a porta da frente
Era a Realidade, nada faceira
Queria um pouco de açúcar.
Por fim entrou e aceitou uma xícara de café.
Acabou ficando
Era hóspede, agregada.
E nem mais dividia o aluguel. 

A cozinha foi ficando bagunçada
A tampa e a panela separadas
No armário revirado.
E os contrates não tinham mais valor.

Um dia a mocinha quis um basta
Realidade, coitadinha
Acabou caída no meio-fio
"Aqui não tem mais anfitrião"
E a porta bateu em sua cara.

Mas um buraco ficou
As metades da laranja sentiam falta
Da hóspede, inicialmente indesejada.
É que sem ela, as coisas poderiam ser melhores
Mas não faziam sentido. 

Mas pra quê se preocupar
Se nossa querida amiga Realidade
Sempre acha o caminho de volta?
Toc toc, olha lá ela de novo
E dessa vez bem recebida
"Olha lá a Rê!"
Ganhou abraço e até flores.

Rê era feia às vezes
Sua pele era dura e ressecada
Mas quem não precisa dela?

Teve cerimônia pra incluir
Nossa Rê no casamento.
No grande dia,
Ela assinou seu nome inteiro 
"Realidade Necessária".

(Gláucia Minetto Martins)

2 de janeiro de 2013

Ano novo


Eu quero que nesse ano
O novo chegue além, muito além
Da eterna frase "feliz ano novo".

Eu quero que as quatro letrinhas, n-o-v-o,
Saiam voando levadas pela brisa
Subam bem alto, pra cima das nuvens
E depois desçam também
Pra poderem se lavar 
Na chuva do fim de tarde.

Que a água tire toda sujeira 
Que elas acumularam ao passar do tempo.
Aí então, eu quero que elas voltem,
Sem pressa.

Que elas cheguem em paz
E se instalem em mim, no meu corpo
Me deem um novo ano real
Mais que uma volta em torno do sol...

Uma volta em torno do meu coração
Pra entender qualquer aflição
Enfrentar os medos
E experimentar sempre
Tantas possibilidades, 
Das quais o nosso globo está cheio.

(Gláucia Minetto Martins)