31 de dezembro de 2013

Um novo ano


Todo ano pensamos em ser diferente
Em mudar tudo o que incomoda
Restaurar os danos e manter as coisas certas. 

Que quando o ponteiro marque meia-noite
Consigamos ser melhores do que já somos
E realizar os sonhos de um ano bom.

Que os próximos 365 dias
Tragam sempre paz, saúde e amor 
A todos nós.

(Gláucia Minetto Martins)
Um feliz 2014!
.

11 de dezembro de 2013

Tributo à amizade

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Eu sinto a sua falta
Saudade de um tempo
Que você era pronto pra mim...
Seu sorriso era tão feliz
E seu abraço tão amigo.
Até minha mãe gostava de você...
Eu te falava dos meus sonhos
Te mostrava músicas e poemas...
Nossa amizade era linda e acolhedora
Tinha gosto de adolescência, de coisa nova
De volta de carro num fim de semana.
Pensei em você pra tanta coisa,
Te quis tão bem
Mas nossa história ficou só no verbo
E nos perdemos então.
Às vezes eu me lembro de você,
A mim tão especial
Vejo uma foto ou duas
E desejo que algum dia
A nossa amizade possa renascer
Porque você me fez tão bem...

(Gláucia Minetto Martins)

2 de dezembro de 2013

Passado passarinho


Passarinho voou pra longe
Mas logo cansou as asinhas e voltou pra casa
"Passarinho, que bom que você veio
Eu nunca te esqueci"
Mas ele voltou dando carona
Pra outra vida que encontrou lá longe
A passarinha que ele trouxe era arisca
Bicava tudo que via
Brava louca, apaixonada
"Passarinho, tu voltastes
Mas vai de novo e traz no bico
O ponteiro mágico de um relógio
Que faz o passado infinito"

(Gláucia Minetto Martins)

30 de novembro de 2013

Bússola

e se eu não sabia vídeo game
você não se importava
ria e me beijava.
se eu não tinha senso nenhum de direção
você me mostrava o caminho
me falava qual rua subia descia
mostrava a seta e o mapa.
se eu tinha medo minha mão ficava na sua
e eu esquecia de ser boba.
se eu pensava demais você me aterrissava
se era chata me olhava feio
se desatualizada me mandava um jornal
mas quando tudo perdeu a mágica
eu perdi no vídeo game
você se irritou e tomou uma cerveja.
mas hoje o dia surgiu diferente
abri a janela e senti cheiro de baunilha
de todas as coisas boas que me fazem bem
acho que é o ponteiro se ajustando
o eixo da terra se abalando
todo mundo retomando as pegadas
pra que você volte
ouvindo dentro da sua cabeça a minha lembrança
me chame de novo pra dar uma volta
e vai me dar rumo outra vez.

(Gláucia Minetto Martins)

12 de novembro de 2013

Abraço


Quero te abraçar de um jeito bom
Pra que você se lembre do carinho que eu pude dar
Do calor da felicidade do nosso momento
Queria te ver agora mesmo e fazer isso
Só um abraço bem apertado
Uma palavra confortadora eu encontraria
Você sorriria e ficaria bem mais uma vez.
Que nada nunca nos abale
A ponto de matar esse abraço.

(Gláucia Minetto Martins)

30 de outubro de 2013

O homem e a bruxa


Certa vez, um homem amou uma bruxa
E a bruxa dizia amá-lo mais que tudo
Ela fez então uma ilha só para eles
No meio do mais distante oceano,
Circundada das mais profundas águas.
A ilha era bela e cheia de paz
O homem ouvia o cantar dos pássaros e da água
A bruxa era muito feliz e só queria olhar para ele.
Mas chegou o inverno e não sentiram frio
O sol continuava a brilhar persistente.
Chegou a primavera e nada mudou
Pois lá sempre havia flores.
Veio o outono e nenhuma folha caiu
Veio o verão e era como se o tempo estivesse parado.
As estações continuavam a ir e vir
E o homem então sentiu falta dos amigos
Das conversas sobre jogos e dinossauros,
Livros e piratas
(Afinal sempre fora uma criança)...
Ele não tinha mais sua cama confortável
E já sentia falta do trabalho
Mas a bruxa não sentia nada disso
Só o olhava e espantava até uma mosca de perto do seu amor.
Homem e bruxa perderam a contagem do tempo
Já não percebiam nem mesmo o cantar dos pássaros
(A bruxa na verdade nunca parou para escutar nada além da voz do homem).
Ele então pediu à ela que fossem embora
Retomassem a vida normal - eles ainda se amariam 
Mas a bruxa recusou
Disse "esse é nosso paraíso, meu bem".
Um dia passou um avião
O homem se viu escrevendo help me na areia
E fazendo polichinelo para ser visto
E a bruxa só na espreita...
O avião não viu ninguém e partiu.
Muito mais tempo passou
As linhas do rosto do homem ficaram fundas
E o rosto da bruxa também caiu um pouco.
Em uma tarde mais quente que o normal
A bruxa não acordou da soneca que tirara
E o homem compreendeu que chegara a hora
Chorou pela amada e a colocou no mar
Para que as ondas a levassem onde tinha que ser.
De repente tudo começou a tremer
Árvores caíram e o mar ficou agitado
A visão do homem ficou turva
E quando percebeu estava em casa novamente.
Depois de tanto tempo, a mágica da bruxa se desfizera
E o homem estava livre
Mas ao ir ao banheiro se deparou com um espelho
E levou um susto com sua velhice.
Compreendeu então, com tristeza
Que amara sua bruxa, mas com ela, fugiu da vida.

(Gláucia Minetto Martins)

11 de outubro de 2013

Como é belo um mundo que nunca para

O tempo sopra a poeira dos ossos em nossas faces
Eu vejo uma lágrima, ela lava a pele e redime o mortal
Fere os lábios com o sal de todo sofrimento

Os anos banham os rios do destino
E chegam ao oceano da vida
Como tsunami levam as pessoas
As casas
As ideias
Os ideais.

O tempo treme nas órbitas do espaço
Mas encontra segurança aqui
Onde o percebemos.

É preciso entender e amar o passar das horas
Que a tudo dão continuidade
Para que as coisas aconteçam
E não sejamos corpos flutuantes em conserva.

(Gláucia Minetto Martins)

9 de outubro de 2013

Minha sina


Tenho um verdadeiro sentimento
Sinto raiva e sinto culpa
Por não ser alguém que eu preciso ser
Mas as circunstâncias não permitem 
Que eu libere meu mundo por enquanto mudo
Pois não posso lidar com as consequências
Essas que na verdade sei que eu poderia aguentar.

Só tenho fé que isso tudo tem um motivo
Um ensinamento extremamente válido à minha existência
Para que eu possa ensinar os filhos que virão
A ter também fé e paciência.

Minha história, ninguém jamais poderá entender
Meu ser, ninguém jamais vai absorver 
Meus pensamentos não serão decifrados por inteiro
E vou caminhando 
Em meio a dores que misturam-se com a beleza.

Sei que nasci aqui
E quero aqui continuar..
Mesmo pagando pelos erros alheios todos os dias 
Erros rudes e estúpidos que me mostram 
O que não fazer na minha vida.

(Gláucia Minetto Martins)

6 de outubro de 2013

Poema sobre a vida toda

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Antes que a cova encarregue-se do meu corpo
Não poderei caminhar
Por todas as terras que sonhei
E não terei tempo para todas as histórias
Que moram nos livros dos quais sou sedento.

No desenrolar monótono dos meus dias
Acabo por entender, então
Que a vida é apenas vontade.

Compreendi que aqui se nasce
E aqui se morre
Mas só se vive segundo a Constituição
E a Constituição dos bons modos, também

Os indomáveis são loucos
Bombas ativas,
Insanos amantes da verdade.

O corpo que gera
Expulsa seus filhos
Em favor da vida,
Da qual não se escapa.

A tal liberdade
Frente aos meus olhos não é nada.
Se eu sair para ser qualquer coisa
À tardinha preciso voltar para casa.

Não importa o que se queira
A alma nunca ficará completa.
Apenas vivo o roteiro que aprendemos.

(Gláucia Minetto Martins)
 

Essa coisa de não ligar pra nada

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Você é de carne e osso e o seu maior defeito
Te torna tão vazio...
Se não dá pra cuidar nem do seu próprio eu
Como é que você vai carregar outra vida nessas mãos dadas?
As pessoas dizem que algo está faltando
Porque elas não conhecem o seu jeito só
Não sabem quanto é difícil nascer assim
Cheio dessa coisa de não ligar pra nada...
E eu vejo tudo isso
Eu quero você só pra mim
Com os seus defeitos chatos
Mesmo sabendo que um dia
Isso vai me desgastar também.

(Gláucia Minetto Martins)

na segunda-feira ainda haverá você


eu não sei como eu vou acordar amanhã
e como vou estar na semana que vem
segunda-feira pra mim é vida nova
é o futuro que bate à minha porta
mas trinta e seis meses se passaram
e o seu nome ainda está comigo

não dá mais pra aguentar
saber que posso correr até a sua casa
e te dizer todos os sonhos que tive
cobrar todas as coisas que você poderia ter sentido

então, meu bem, me dá só um pouquinho da sua vida
me dá um beijo, me dá seu gosto
pra eu gravar na memória
e sentir seu cheiro
quando não tiver nada que me conforte
nessa minha triste trajetória.

(Gláucia Minetto Martins)

Sobre esse gosto na minha boca

Ah, como é amargo
O gosto das coisas que não fizemos.
Um beijo,
Um abraço,
Uma palavra,
Uma declaração,
Uma simples verdade...
Mas fazer voltar o tempo já não basta
Pois o sentimento novo e cheio de expectativas
Já foi corrompido
E agora não há mais o que fazer
Além de segurar a ânsia de um "já foi"
E seguir em frente
Esperando fazer o que se tiver vontade.

(Gláucia Minetto Martins)

29 de setembro de 2013

Nas pontas dos meus dedos


Nas pontas dos meus dedos
há sulcos milimétricos
são estradas esculpidas na pele
todas curvas, não têm começo nem fim.
Levam-me a mim mesmo
e juntas são a marca única
da minha identidade...
Elas juram, elas provam
que eu não posso fugir de mim.

(Gláucia Minetto Martins)
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20 de setembro de 2013

som

olhos
teus
a me fitar
a me estudar

corpo
seu
perto do meu

existência
sua
no meu mundo

arrepio
ao te ouvir
chamar meu nome

só o que quero
é ouvir

(Gláucia Minetto Martins)

15 de setembro de 2013

O Final

Andei esperando aquele inverno passar que não percebi que o verão havia chegado. Mas não percebi, também, que o inverno havia voltado. Acreditei, imaginei controlar meu destino, refazer a vida, criar as regras e ganhar todos os jogos sem ter nenhuma carta na manga. Não, eu não posso. Será que, eu, não estou perdendo-me num abismo que, geralmente, as pessoas não se ousam a se jogar?

Havia uma necessidade em mim de novamente voltar a escrever algo. Mas, com o passar do tempo percebi que não se escreve nada sem realmente precisar escrever. Hoje, estou perdido em encontrar essa necessidade. Mudei meu jeito de ser e, na minha vida, parece que de nada me falta. Mas em cada cinco minutos essa afirmação torna-se uma dúvida ruim de se pensar.

Ando mudando, assim como toda aquela água que se passa por debaixo da ponte. Eu andei mudando, mas pareço estar retornando a aquele bobo menino de anos atrás, sofredor de sentimentos meta-físicos e difíceis de se entender. Pensei que isso nunca mais retornaria e, sem querer, preciso daquilo que imaginei jamais precisar. Como pode um sentimento deste me fazer bem?  Parece que estou vivendo intensamente novamente e que toda velha sombra de pessimismo se foi, aquilo que carreguei por muito tempo, foi como algo que se perde de vista, ao longe. Aprendi a reunir tudo o que é bom e destruí tudo o que é ruim. Isso explica porque nunca soube dizer quem eu sou realmente e isso ninguém será capaz de saber. Apenas piorei na ortografia, gramática e outras porcarias da língua portuguesa, mas isso não importa mais, pelo menos não agora.

Provavelmente tenha chegado o momento em que é preciso misturar tudo para ver no que vai dar, para ver o resultado final. Chegou a hora, o minuto, o momento preciso de acontecer. Se jogar naquele abismo de que citaram, aquele olhar me chamou e é preciso me jogar. Quanto mais um texto é objetivo e direto, mas ele se torna longe de ser entendido.

"Prometo pular se me disserem, também, que ele é sem fim".
Mas, se lá embaixo não for aquilo que esperava, com certeza será algo que ainda preciso conhecer. Afinal, o final é sempre um novo começo.

 (por Murilo Friedl)

8 de setembro de 2013

"Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando."

Pablo Neruda

Meu abismo, belo abismo

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Disseram-me o que o abismo está em amar
E querer, sentir, pensar...
Oh, em que belo abismo me encontro.

Andando na beira, prometo pular
Se me disserem também 
Que ele é sem fim

Prometo aceitá-lo então
Se com isso eu for tão feliz como quando
Estou no abismo dos seus olhos...
Ah, eu sei
Que eles me chamam.

(Gláucia Minetto Martins)

29 de agosto de 2013

Vo-cê a-qui

Eu não estou feliz
Eu não estou bem
Porque nunca senti você dentro de mim
Tô querendo entender
Todas as coisas que os poetas dizem
Ter gracinhas bobas contigo
Que só a gente entenda
Andar de mãos dadas numa tarde qualquer
E com você ir embora de qualquer perigo...

Estou esperando,
Já cansada de imaginar nós dois...
Nunca te ter dentro de mim
E eu em ti.

(Gláucia Minetto Martins)

24 de agosto de 2013

Treze


Deixa eu te contar
Os pensamentos que descobri
Quando te amei
Eu me encontrei de uma forma estranha
Estúpida, mas feliz
Eu quis morrer de amor
Eu quis te agarrar e te prender
Num canto seguro, onde ninguém te acharia
Eu quis te levar embora
Quis que você batesse na minha porta
Te esperei passar na calçada de casa
Peguei sua mão disfarçando
Brinquei de olho no olho
Quem perdesse o foco não venceria
E você sabia que era só pra poder te encarar
Porque meu dia não era nada
Sem os seus olhos escuros
Me olhando também
Deixa eu te contar
Que aqui, depois de uns anos
Você se perdeu na vida diferente da minha
Te encontrei com outro jeito e mesmo rosto
Mas tudo diferente...
Te vi, te quis, te compreendi,
Foi recíproco, acho eu
Mas tudo ficou com lembrança
A mais doce que alguém poderia me deixar...

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(Gláucia Minetto Martins)


15 de agosto de 2013

Paranóia


Perguntaram-me o teu nome inteiro
respondi sem abreviações
como amante exemplar.
Perguntei então por quê
disseram-me que foi anunciado
em programa de rádio.

No espaço de um segundo
te vi em acidente de automóvel
vi teu nome em placa de velório,
o teu caixão como palco
ostentando teu rosto sem cor.
Vi seus cabelos, sua barba
flores fúnebres no teu peito.
Os olhos fechados,
fixos na morte.

Quase perdi o foco
meus olhos já queriam verter lágrimas.
Em um segundo eu sangrei
meu corpo estremeceu.
Nesse momento
eu morri um pouco também.

É mais um pedacinho da minha alma
que você levou, sem saber.
Voou feito pena ao teu encontro
e não pude apanhá-lo de volta.

Mas sua morte era balela
o anúncio era outra coisa
e pensei aqui comigo
"meu Deus, o que eu faria se você se fosse?"

(Gláucia Minetto Martins)

06/12/2012

30 de julho de 2013

Nós


Eu sei que você foi feito só pra mim
E meus olhos não podem acreditar
Nas coisas lindas que eles captam em você
Eu quero tudo isso, eu te quero do meu lado

Nós podemos andar de mãos dadas por aí
Nos perder no Rio, São Paulo ou BH
E mesmo assim as ruas se abririam pra gente passar
E todo mundo nos ajudaria a encontrar o caminho
Porque não podemos nos perder
Além de um no outro

Ei você, eu quero saber
Se vai acordar comigo todo dia
Se pode me beijar no fim de cada hora
E aí, a cada minuto o coração vai bater
Buscando sempre mais do nosso amor

(Gláucia Minetto Martins)

24 de julho de 2013

Danificado


Eu pensava que tudo estava bem
Que o seu mundo não estava desabando
E os seus passos estavam te levando pra casa
Mas agora eu descobri que você está quebrado
Que os meus medos são verdade...

Você não sabe mais onde é sua casa,
Quem te espera pra dormir e pra te amar
E agora perdeu também a sua identidade
Porque o seu próprio jeito te afastou
Daquilo que você mais gostava

O meu jeito, a minha casa e o meu amor
Sempre estiveram aqui, vivos, prontos pra você
Mas não recebi nada mais que o vazio de um sonho 
E palavras viciadas de alguém sem emoção

Vêm pra mim enquanto é tempo
Porque o pra sempre é muito grande pra esperar
Quem não sabe se vai poder oferecer
Tudo aquilo que anseia em receber...

(Gláucia Minetto Martins)

20 de julho de 2013

A Hospedeira - Stephenie Meyer





"Melanie Stryder se recusa a desaparecer. Nosso planeta foi dominado por um inimigo que não pode ser detectado. Os humanos se tornaram hospedeiros dos invasores: suas mentes são extraídas, enquanto seus corpos permanecem intactos e prosseguem suas vidas aparentemente sem alteração. A maior parte da humanidade sucumbiu a tal processo. Quando Melanie, um dos humanos "selvagens" que ainda restam, é capturada, ela tem certeza de que será seu fim. Peregrina, a "alma" invasora designada para o corpo de Melanie, foi alertada sobre os desafios de viver dentro de um ser humano: as emoções irresistíveis, o excesso de sensações, a persistência das lembranças e das memórias vívidas. Mas há uma dificuldade que Peregrina não esperava: a antiga ocupante de seu corpo se recusa a desistir da posse de sua mente."

Ganhei  "A Hospedeira" - Stephenie Meyer, de um amigo, quando já tinha outras leituras na frente. Eu tinha vontade de ler logo a história, mas nunca desconfiava que ia gostar tanto. Estou completamente apaixonada por esse livro, que devorei em quatro dias. Não queria saber de outra coisa, a curiosidade pelo que ia acontecer em seguida aumentava cada vez mais. 
A narrativa é original e muito bem estruturada. Fala sobre o amor, explorando esse sentimento de um jeito inédito, interessante e lindo. Mostra sua origem na vida de Peregrina, seu desenrolar cheio de aceitação, sofrimento - no caso inevitável, e de significado tão grande que ultrapassa as barreiras até mesmo interplanetares. 
A narrativa explora também a esperança, o direito de acolhida, a morte e a vida, de um jeito sutil e altamente apaixonante. 
Vale a pena ler "A Hospedeira".

ainda haverá você, eu sei que restará você


eu não posso prometer que essa é a última vez
que escrevo sobre você
mas eu quero que seja...
já não me importa todo o tempo que passou
não faz mais sentido medir a minha insistência nos ponteiros
porque eu sei que nunca vai passar
e não quero carregar uma medida que não diz nada,
só ilustra minhas bobagens.
porque eu sei,
eu sei que o tempo passou e eu continuo aqui
e você continua aí levando essa sua vida incerta
mas feliz, eu acredito...
você tem as suas coisas
o seu mundo, a sua música
e outra pessoa nos seus braços
que nunca foram meus.
eu já pedi perdão por guardar tudo na minha cabeça
mas por mais que eu te liberte
ainda haverá você, em ecos no meu coração

(Gláucia Minetto Martins)

17 de julho de 2013

Sobre o amor



O amor é o nosso não à solidão
É o compartilhamento de uma vida
É duas ou mil almas que se unem...
Desde a mais complexa Trindade
Até o amor tão simples que todo mundo conhece.

Eu vou morrer jurando que o amor
É o que liga tudo o que há nesse universo...
É o ingrediente secreto
A energia que criou o Big Bang...

É o que nos leva do começo ao fim,
Prende nossa memória e cura junto com o andar dos ponteiros
Porque esse é o sentimento que existe em tudo...
E até quem odeia a tudo e a todos,
Nem que a boca profira, não quer morrer sozinho.

(Essa é mais uma contribuição para a Corrente Literária.  Dessa vez, o tema é "Amor, o que é para você?")

14 de julho de 2013

O que é preciso para ser feliz


Eu quero é saber quem é exatamente feliz,
Porque é possível!
Ser feliz é estar bem, é o agora
Apesar de todas as coisas que a vida carrega.

E estar bem apesar de todas as coisas é saber libertar-se,
É saber relevar todo mal,
Amando a graça de cada momento que chega
E desprezando os poréns nas horas boas.

Porque nenhuma vida é perfeita
E ninguém pode dizer que não há problemas.
Mas além do caos
Há a vida e o presente...
Há o futuro que dança perante os nossos olhos.

É preciso que a felicidade seja apenas a existência,
Que a felicidade seja o estado de espírito
Das horas em que os problemas desaparecem.

(Gláucia Minetto Martins)


3 de julho de 2013

Juntos


eu sinto que tudo entre nós é tão lindo
é leve e livre, é bom e claro
eu sinto nós, eu apenas sinto
e eu queria mais.

pergunto como você se sente
e eu fecho os olhos quando a resposta está por vir
eu sei bem que você está pensando tanto
porque eu sei que você não quer ter
essa ausência de sentimento...

você pode ter certeza que eu me lembro
de todas as coisas que aconteceram
e também daquelas que ficaram para acontecer
e se eu ainda quiser, a mim nada custarão
mas a você sairá bem caro
porém nós sabemos o quanto seríamos bons...
juntos.

(Gláucia Minetto Martins)


Meu vício


Meu vício me abandonou...
Surgiu dentro de mim com apenas um olhar
Cresceu o corpinho inquieto,
Alimentando-se das esperanças e bobagens.
Amadureceu a pequena mente 
Adormeceu muitas vezes
E assim ficava por muito tempo,
Mas quando acordava 
Pisava tão forte dentro de mim
Fazendo tudo ficar dolorido.
Meu vício tem nome
Foi batizado quando notei sua presença
E recusei-me a abandoná-lo.
Mas agora, depois de algumas centenas de dias
Ele se sentiu pronto para ir.
Eu deixei, porque faz mal segurar as coisas
Que não querem ficar...
Meu vício me deixou,
Porém às vezes eu sei que olharei
Os álbuns de fotografia. 

(Gláucia Minetto Martins)


29 de junho de 2013

Passarinho


Passarinho, por que canta tão triste?
Por que está tão sozinho?
Por que anda com os olhinhos tão baixos
E canta a história de um coração partido?
Por que não volta pro seu bando
Batendo as asinhas com alegria?

Olha passarinho, a vida é tão bonita
E as árvores são eternamente verdes ao sul
Lá não há outono com folhas mortas
E a primavera está sempre nos corações...

Lá os pássaros coloridos são seus vizinhos
E eles às vezes tiram uma pena ou outra 
Pra enfeitar seus ninhos
Mostrando pra quem quer que chegue
Que tudo sobrevive quando se quer bem a si mesmo.

(Gláucia Minetto Martins)

22 de junho de 2013

Do outro lado


Não há nada de você em minha vida
Você me encontra no meio de tanta coisa
Não diz nada, apenas dá um sinal
Não respondo, espero um pouco.
Não sei nada do que é você
Um louco, um chato, um nojo
Mas aperto o play, então...
Seu rosto é sério e grave
E eu sei que você se segura pra não sorrir
Porque quer manter a pose intelectual.
Você apenas olha para a câmera
Sem dizer uma palavra
Apenas toca a música que criou 
E nem nisso eu presto atenção
Apenas vejo um rosto
Olhos que observam as cordas
E raramente me encaram do outro lado.
Quando o vídeo quase acaba
Eu expando a imagem
E a mim parece que te tenho aqui...
É território estranho
Mas você existe em algum lugar
E basta pensar que você é alguém 
Que toca violão. 

(Gláucia Minetto Martins)

O que não é

Há músicas e poemas de amor 
Estampados em outdoors, faixas e vídeos
Mas você sabe que não pode se arriscar assim
Porque a resposta já está dada há muito tempo
E a queda seria dura de mais...

Você se lembra de cada passo
De cada momento inseguro ou feliz
Se lembrará para sempre
E algumas vezes vai sorrir.

Há cartas, rabiscos e souvenires
Guardados todos na memória e na gaveta
Mas não há nem haverá nada...
Há apenas o que somos
Seguindo tudo de olhos bem fechados
Com um pé no chão e outro no passado.

(Gláucia Minetto Martins)





18 de junho de 2013

Levanta, terra



Levanta, terra, e olha seus filhos
Treme sob os pés que nasceram de ti
Absorve a luta e e transforma o peso da marcha
Em terremoto que derruba toda a escória.

As estrelas que brilham veem os montes humanos
Que chegam com o futuro
Moldados na terra pelos séculos maus
E o céu vai chorar em forma de chuva
Lavando uma nação violada
E trazendo no horizonte um novo tempo,
Que tímido, avança um passo de cada vez.

(Gláucia Minetto Martins)

3 de junho de 2013

Sobre as coisas que vêm e vão


Ô menino, eu vou acabar enlouquecendo
Porque fui envelhecendo 
E as coisas na minha cabeça
Não vão embora, não...

Eu acho que eu tô mesmo é louca
Mergulhada em tanta coisa que veio e que foi
Pensando assim em tanto amor
Fingindo que sei as coisas da vida
Pagando de tola pra mim mesma.

Ô menino, eu fico aqui pensando
Que tudo mudou...
E te reencontro mudado também
Mas eu sei que há em você
O seu jeito persistente
Que há tanto me fez ser feliz
E plantou em mim
As mais doces das lembranças.

Eu só digo que muitos vieram
Alguns se foram
Perdi laços duradouros
Quase eternos porque se foram.

Mas hoje eu encontrei na minha gaveta
No meio da caixinha de cartas e fotos e falas
Um pedaço do laço
Que eu já começava a sentir de novo
Aqui dentro de mim.

Ô menino, o que você fez esse tempo todo?

(Gláucia Minetto Martins)

29 de maio de 2013

Tempo, rotina e amor


Estive bem e não quis saber das falhas
Ignorei os erros que cometeram e refletem em mim
Relevei toda briga que escutei
Equilibrei os lados da balança que caiu em minhas mãos.
Senti-me falso ao querer o bem de todos
Traindo os sentimentos de um e outro
Me contive e remoí o que me corta
E o pulso que atinge em cheio a minha paz
Escrevi cartas para Aquele sem defeitos
Fiz-me fraco, inconstante e chagado
Depositei aos pés da cruz que sempre espera
A minha súplica, a minha dor, a minha angústia
O desânimo e morte lenta que corrompem todo o sangue do meu corpo.
Fui ouvido e senti-me pleno
Confiei e amei o que me acalenta brandamente
Tão suave que quase não consigo sentir.
Mergulhei na grande paz que me perdoa
Abracei a vida que escorre vermelha pelas chagas
Mas reneguei meus sentimentos pela escória humana.
Ainda sinto a mão que me chama
Reluto em minha sujeira com o mundo inteiro mantendo-me ao chão
Porém amo e reconheço
E irei sempre ao encontro de quem me espera no horizonte
Levando miséria e amor humano nas mãos que abrem caminho
Pelas florestas geladas do tempo e rotina.

(Gláucia Minetto Martins)

16 de maio de 2013

O que eu quero de você


Te achei 
Te vi
Assim meio frágil no meio de tudo
Não sei se na hora senti pena
Acho que foi mais curiosidade
Pra saber de todo o passado

Te vi de novo
Te achei de novo
Entre todo mundo
Você me viu também

Será que só me olhou passando
Ou se me ver amanhã e depois
Vai se lembrar do meu rosto?

É que você é tão bonito...
Ou sei lá
Só quero saber mais
Sobre você
E aprender o seu jeito
Os seus traços
O seu cabelo
O seu defeito
E os outros defeitos também...

Só saber o que te faz
Levantar da cama todo dia
O que te acalma
E o que não acalma

Eu não sei se vou mesmo aprender
Mas é só pra deixar claro
Que eu quero.

(Gláucia Minetto Martins)

7 de maio de 2013

Guarda

um anjo desceu do céu
pra guardar uma nova vida
olhou nos olhos que choravam
a mão nos ombros colocou
quando os passos surgiram
e caminhou ao lado
quando estes as ruas conquistaram

viu as primeiras lágrimas que não eram de fome
e ajudou a espantar os medos que vieram
do escuro e todo o resto.

um anjo desceu do céu
amando o bem
pois conquistou o paraíso
e a guarda do caminho que leva até ele

abraçou o amor que escorre pelo Coração Chagado
e juntos os anjos cuidam de todos os corações chagados.

os anjos andam pela luz que não se acaba
levam a vela secretamente
pra cada chama que há dentro de nós

cada anjo que desce do céu
governa e ilumina aos céticos e aos crentes
que aqui estão para um dia poderem sentir
a bela complexidade do universo.

(Gláucia Minetto Martins)


3 de maio de 2013

Os olhos dela



No olhar dela há abismos,
Mistérios profundos jamais explorados.
Há oceanos arrasadores
Arrastando navios em tempestade.

Os olhos dela são universo em expansão
Levando galáxias vastas e belas
Repletas de estrelas mais brilhantes
Que o fogo incessante
Tremeluzindo no coração.

(Gláucia Minetto Martins)

27 de abril de 2013

Julguei te conhecer


Juliano limpa a boca com o guardanapo
Que Clarisse escreveu seu telefone
Ele amassa, abre, rasga, joga fora
Faz careta e faz amor 
Com a vizinha triste do andar de cima.

Juliano não quer Clarisse jamais
E ela não quer que ele fuja dela
Ele corre sempre que a vê na esquina
Ou na porta do bar, sorrindo feito tola
Pra um moço sem coração.

Juliano é juiz da própria vida, ele diz
Se culpa ou absolve o crime de ser ele mesmo
Vinte e quatro horas por dia.
Mas Juliano é feliz do seu próprio jeito
Vivendo estacionado na conformidade da cadeira do bar
Da cadeira da repartição
Da cama e da privada.

Clarisse vive a vida cheia de emoção
Chora por qualquer coisa
Contorna mentalmente todo o erro do mundo
Quer tudo o que há de perfeito
Dispensa a covardia e o medo.
Mas Clarissa é negação
e Juliano é aceitação de tudo o que é feio.

Amor pra Juliano é coisinha indiferente
Pra Clarisse é sinônimo de vida
É sentimento que ela quer encontrar nele
E ele ignora, porque diz, agora não é hora.

Os dois se encontram na rua
Clarisse insiste e escreve o telefone na cabeça de Juliano
Cantando trinta e cinco vezes os números viciados
Três - seis - dois - quatro - nove e assim por diante...
Assim você não vai fugir de mim
Porque vai lembrar da minha voz
E a música dos meus números vão me cantar pra ti
Vai esfolar a mente de exaustão
E você vai discar só pra ver se aliviar
E vamos conversar e descobrir que o destino nos espera.

Clarisse volta pra casa radiante 
Porque sabe que o telefone vai tocar
Dorme sorrindo, fala sorrindo
Sorri pra'quele homem que ela tanto quer
E quis só de ver do nada no meio de todo mundo
Paixonite assim, bem rapidinho.

E não é que quando a gente sabe, sabe mesmo
E não fica feliz à toa?
Uns dias depois o telefone tocou
E a conversa acabou fluindo
Porque Juliano é chato mas não é de ferro.

E naquela noite a vizinha do andar de cima ficou sozinha
Juliano sorriu no escuro quando foi pra cama
E sorriu mais um pouquinho no outro dia
Quando Clarisse lhe olhou de novo pela porta do bar.

Juliano acabou querendo e assim amou
Aceitou a insistência e até que gostou
Deu a mão e andou os primeiros passos.

Mas ele não deixou de fazer careta, de ter pouco coração
Não deixou a conformidade da cadeira do bar
Da cadeira da repartição
Da cama e da privada
E Clarisse quis saber
Eu julguei te conhecer
Julguei ter lhe mudado
E tê-lo feito mais humano.

Juliano a olhou bem fundo nos olhos
E disse a ela que não há nada que mude sua miséria,
Que era seu traço mais humano.
E como ela julgara conhecê-lo
Se nem mesmo a gente conhece a si próprio?

(Gláucia Minetto Martins)

14 de abril de 2013

eu...

eu não quero me entender
e não quero te entender
eu só quero é ter saudade
e ter presença, também
eu quero continuar
com tudo assim, como está
mas eu quero também
novas coisas pra me animar
pra rir, chorar e viver
porque, o que é que há
de errado nesse lugar
que eu não posso fazer nada
a não ser me renegar?

(gláucia minetto martins)

12 de abril de 2013

Eu queria é colocar seu nome nessa poesia



Quantas vezes eu te disse
Coisas que você não pôde ouvir?
Coisas que remoí 
Sem querer admitir 
Que eu devia mesmo é andar pra frente?

Você me fala de um tempo 
Que há muito já se foi
Penso, divertida
Que você nem sabe 
O quanto eu quis que o tempo parasse.
Mas não parou,
Como tudo que está sobre a terra.

Você me fala assim, sem emoção
Daquela que eu fui
Pelo menos da que você se lembra.
Penso em como as coisas mudam
E percebo que o que vive em mim 
É um você que já passou também
E com um aperto no peito
Constato que nada jamais se encaixaria
Nas expectativas que criei.

O peito aperta mais um pouco
Mas com isso me trago conforto
E quem sabe a liberdade
Pra me desprender 
Das minhas antigas amarras
Que tomo como se fossem dignas
De prender-me hoje também.

Eu me lembrarei,
Mas só do seu nome
Que deveria estar aqui
Pra selar esse contrato
De estupidez e pontos finais.

(Gláucia Minetto Martins)

11 de abril de 2013

Nas águas do mar


Eu queria ver o mar
Olhar as ondas e andar na areia
Sentir o vento nos cabelos

Mas se eu visse o mar
Eu não repararia na areia
Nem no vento...
Eu só amaria sua imensidão
E os seus segredos

No fim do dia
Eu não poderia deixar de pensar
Em quantos barcos e homens
A ele sucumbiram
E imaginar que qualquer pecado
Pode ser levado para longe,
Nas águas do mar...
Para a escuridão do lugar nenhum.

(Gláucia Minetto Martins)

11 de março de 2013




No livro da escola

A menina vasculha o livro da escola
procurando histórias belas

um capítulo diz que a poesia só é poesia
quando ritmada, planejada, emocionada
quando toca quem a lê

ela vasculha um pouco mais
vê uns cordéis
alguns versos curtos e longos
um poeta triste
outro feliz
outro que chama as palavras
tenta capturar o "poeminho" que lhe escapa

e ela decide mesmo
que ninguém ensina
como é fazer poesia
pois pra ela
poesia é qualquer coisa
que se escreva
cortando as linhas
porque o fim delas....................................................................................................................
já está ocupado com a alma do poeta
ou a alma do mundo, que é quase a mesma coisa.

(Gláucia Minetto Martins)

8 de março de 2013

Ferimento

Tem alguma coisa machucada aqui dentro...
Algo que me deixa no silêncio
E nas respostas curtas.
Está claro que quem me feriu foi você
Um soco da sua própria existência.
E eu acho mesmo 
Que se tudo entre nós fosse certo
Eu ainda estaria machucada,
Com escoriações no meu mais profundo eu.

(Gláucia Minetto Martins)

24 de fevereiro de 2013

Pois estamos vivos


Minha mãe mandou que eu seja eu
Meu irmão pediu que eu largue o medo
Meu amor lembrou que só sou dele

A poeira constante dos móveis me diz que o cosmos está aqui
O calor do meu corpo insiste que não estou morta

Os carros parecem dizer que não há nada além de ir e vir
E a correria me joga na cara que ninguém sabe mesmo pra onde ir

Meu despertador apita que o sol já nasceu
E as segundas avisam que o dever é pra sempre

As fotos nas molduras sorriam o passado
E cada segundo me mostra o presente disfarçado de futuro

À noite, o cadeado no portão protege-me da ira dos homens
E o cachorro lá fora avisa quando preciso espiar pela janela


Minha mãe mandou que eu seja eu
Meu irmão pediu que eu largue o medo
Meu amor lembrou que só sou dele
E assim a gente vive
Lutando ou acalentando o que nasce conosco
E nutrindo o que conquistamos depois

Pois estamos vivos
E tudo vale mesmo a pena
Porque minha mãe mandou que eu seja eu
Meu irmão pediu que eu largue o medo
Meu amor lembrou que só sou dele
E minha alma exige felicidade

(Gláucia Minetto Martins)

11 de fevereiro de 2013

Fui eu


fecha os olhos
e me abraça até que o sol
se lembre de amar a terra.

desfaça essa neblina
em que as lembranças adentram
e saiba sempre que fui eu
quem te quis, apesar...
te viu, hipnotizou-se...
amou-te.

comeu-te com os olhos
desejando o toque seu,
todos os seus defeitos e temores.

(Gláucia Minetto Martins)

5 de fevereiro de 2013

As mãos


O quente permanente das tuas mãos
remete-me a carinho e intensidade;
enlouquece-me
e leva-me aos mais lindos sonhos.

O seu toque, disfarçado
é calmo, mas urgente.
Promete muito mais,
vai contra qualquer razão.

As suas mãos arrebatam a mim
e o encontro delas comigo
arrebatam a você também...
Leva-nos sempre de volta
para o amor.

(Gláucia Minetto Martins)

4 de fevereiro de 2013

Amor, calmo coração ou Feito jardim


Jogamos palavras pelo chão
Semeando gestos cálidos.

As nuvens abraçam-se
Para a queda.
Olhamos cada gota
Que desce e ama
Regando a terra e dando vida.

Mais tarde, um raio de sol.
Girassóis do teu amor vêm e mostram-se
Esperando a luz do meu afeto.

(Gláucia Minetto Martins)

1 de fevereiro de 2013

Apenas "ela"


Eu estava na soleira da porta, fumando um cigarro e pensando em qualquer miséria quando ela chegou. Nunca algo me foi tão inesperado. Apertei os olhos para ver se era mesmo quem eu pensava, mas é claro que eu não me enganaria. 
Ela estava completamente diferente. Era uma típica figura de veraneio com sua tanga estampada, blusinha frente única, sandálias de salto, bolsa e chapéu de palha e óculos de sol. Eu sabia que por trás daquelas lentes escuras haviam olhos lilases e brilhantes e que o chapéu escondia cabelos loiros tão claros que eram quase brancos. 
Ela parou na minha frente e não falou, apenas sorriu. Um sorriso feito convite.

***

No passado, ela fora meu mistério, minha hipnose. Arrancou minhas forças feito quebrante. Eu era tão jovem, ingênuo, inocente e tão tudo o que há para ser quando se é tão jovem.
Fui pego de surpresa em um dia vazio de adolescência e viajei por muito tempo no mundo dos sonhos, um mundo feito de luzes coloridas que às vezes caem em sombra. Pairei como em conserva durante muito tempo, o qual nunca pude definir. Flutuava de braços e pernas abertos no meio do nada e apenas a mente funcionava, perdida em lugar nenhum.
Às vezes tenho a certeza de que minha identidade se esvaía aos poucos, que meu corpo era como uma casca; um casulo que se abre para deixar algo mais bonito passar. Pois foi no momento mais crítico que senti alguém segurando minha mão, e foi como se tudo o que eu deixava escapar voltasse ao meu corpo com um baque. 
Com esforço, virei a cabeça, e vi aquela mulher com feições brandas e puras, atravessando meus olhos com os dela e eu soube que ela lia, então, todo o meu eu. Já não havia segredos. 
Fechei os olhos e concentrei-me no ar que se movia dentro de mim e senti-me mais vivo que nunca.

***

Quando percebi, já estava em outro lugar, deitado em lençóis brancos e macios, mas não havia chão, nem paredes ou teto. Apenas uma névoa branca de reflexo roxo. Ouvi um som angelical e só então percebi que ela ainda me fazia companhia. Ela estava cantando, mas não pronunciava palavra alguma. O som que escapava de sua boca era como o de um instrumento de som melancólico e quase materializava-se na névoa, cobrindo tudo.
Seus cabelos eram daquele tom quase branco que só encontramos no mundo fantástico, tão longos que tocavam os tornozelos. Os olhos, eu ainda não identificara a cor, mas absorviam-me até o último pensamento e sensação. Quando ela parou a música para tomar fôlego, pude ver que os seus lábios tinham uma leve inclinação que por um momento cheguei a pensar que era um sorriso, mas eram os belos traços de sua feição.
Ela trajava tecidos branquíssimos como os meus lençóis, vestido cortado como o de uma fada branca e purificadora. Seria ela uma fada? Não me importa o que fosse, ela apenas excitava-me do início ao fim, em todos os sentidos, e eu soube assim seria até a morte.

***

Essa foi a primeira de muitas vezes que a encontrei, ou que ela encontrou-me, para ser exato. Eu não mais pairava no meio do nada, encontrava-a prontamente em meus sonhos. 
Ela nunca falou ou me tocou, a não ser nas mãos. Apenas cantava ou ficava estática, me olhando por um longo tempo com os olhos que enfim, identifiquei como lilases. Depois me pegava pela mão e me guiava por algum caminho que me levava de volta ao mundo real, para viver mais um dia. 
Eu encontrava-a em sonho, mas sabia o quanto ela era real... Nenhum efeito psicodélico ou fruto da imaginação.
Eu queria perguntar seu nome, mas no mundo em que nos víamos, eu não tinha forças para falar. Restava-me apenas ansiar pelos nossos encontros, e durante o dia ela era minha fada sem nome, minha lembrança e saudade, mas só durante o dia, porque à noite, em sonho, eu não precisava de nomes ou certezas, apenas do seu rosto a me fitar. Eu vivia em função dela, e sabia que a insônia jamais me atingiria. 
Mas houve um tempo em que os sonhos ficaram mais escassos e eu voltei a sonhar também com outras coisas normais. Assim, o fim ficou próximo e um dia ela já não estava mais lá. Eu sabia que ela nunca mais voltaria, e o tempo passou. 

***

No dia que ela voltou e me sorriu, com os óculos de sol e chapéu de palha, meu coração virou geleia e minhas entranhas contorceram-se de ansiedade. A minha fada voltara, ela estava ali para mim. Eu não a via em sonho, e sim em jeito e traje de mulher comum. Mas é claro que ela não era como as outras. 
Com sua volta, convidava-me a voltar para ela. Agora eu tinha escolha, ela não segurava minha mão e me guiava, e sim prostrava-se diante de mim esperando minha palavra, o meu sim.
E a minha aprovação seria inevitável, eu jamais esquecera-a. E eu pude saber que ela escolheu-me quando me encontrou pairando no meio do nada, que declarou-se guiando-me, e assim pertencemos um ao outro nos meus sonhos. Eu sabia que ela me escolhera também quando voltou naquele dia, disfarçada em seus novos trajes, discreta e feliz, esperando por mim. 
Ela estava ali, não era mais sonho ou lembrança. Eu ainda não sabia o seu nome ou a vira pronunciar alguma palavra, mas ela estava ali de volta, muitos anos depois. E eu soube que não iria mais embora quando fui eu que peguei em sua mão e guiei-a pelos meus próprios caminhos.

(Gláucia Minetto Martins)