26 de novembro de 2012

Os pássaros e as folhas


Deitada em minha cama
olho pela janela.
Vejo os pássaros passarem
e a árvore que perde as folhas
no luto do outono.
Eu vejo
a vida passar pela minha janela
que dá pra rua
e por isso ostenta sempre
um cadeado.
Pois então,
os pássaros
e as folhas
só passam e só caem
aqui dentro
do meu coração.

(Gláucia Minetto Martins)


A primeira vez em público (A viagem sem destino)



Escrevi esse poema baseada no filme "Titanic", para apresentá-lo no evento "Ler e Cantar É Só Começar", da escola onde curso o Ensino Médio. Esse ano, o tema foi "Teatro, Cinema e TV".  
Apresentei-o ao lado de João Vitor Zaghi.

Leia o poema aqui.

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19 de novembro de 2012

O amor primogênito


O amor me parece
me aparece
o amor ilusório, talvez
(mas quem garante que o primeiro deles,
por mais tolo,
não seja realmente amor?)
e alguém o esquece?
O qual foi-me entregue.

Tal amor que descartei
pisoteei, com vergonha nos olhos.
Esse que agora
me pesa pesa no peito
judia-me
e faz-me voltar sempre
a atenção para a vida alheia
esta que invadi
mas não colhi um fruto sequer.
E hoje, por mais putrefato que possa ser
eu o quereria.

(Gláucia Minetto Martins)



16 de novembro de 2012

Na parede



Escrevi na parede da tua casa
pichei mesmo, lide com isso
Pra que você, sempre que chegar
cansado de um dia de trabalho
ou de boemia
Veja os versos
toscamente escritos no cimento
e saiba, quando deitar na cama
que lá fora
na parece da tua casa
palavras ecoam
o quanto eu gosto de você.

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15 de novembro de 2012

Chega a hora

É meu bem, não podemos evitar
a hora do acerto de contas
o passado bate à nossa parte
traz junto o medo inútil.
E no fim,
o vazio
o desconforto.
Mas a sensação
de estar tudo em pratos limpos.
Não há nada a pagar.
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(Gláucia Minetto Martins)

Eu vou passar três dias fora



Eu vou passar três dias fora
Quase não quero ir embora
Mas a mala já tá pronta
E o passaporte tá esperando
No fundo da gaveta.

Eu vou passar três dias fora
Vou pensar em cada pétala
Do jardim que querem cultivar
No quintal do meu coração.
Cheio de rosas
Jasmins, margaridas, girassóis
E querubins.
Feitos de pedra,
Brincam de ciranda.
Esse jardim é só disfarce
Pros cadáveres enterrados
Na profundeza do solo árido
Do meu coração.

Tão querendo me esconder
Me fazer acreditar
Que o tempo vai curar.
Tempo, querido
Erva curativa
Eu conheço o teu poder
Mas me deixa,
Só um pouquinho
Aqui quietinha
Não me deixa esquecer a intensidade do hoje
Que sempre parte depois da noite de sono.

Eu vou passar três dias fora
Vou eu mesma cultivar o meu jardim
Não vou deixar nenhum estranho
Regar o que vive aqui dentro de mim.
Vou eu mesma conversar com o tempo
Fazer um chá da tarde
Oferecer-lhe biscoitos
Faremos acordos
E eu sairei com o melhor jardim
E o melhor tic tac
De todos os tempos

Porque não vou deixar
Que os três dias virem nove
Nem dez,
Nem dezessete.
Vão virar o meu refúgio
Acatando a minha fuga
E quando voltar,
Tudo estará
Em seu devido lugar.

.(Gláucia Minetto Martins)

14 de novembro de 2012

Amizade

- Tou super, super, super feliz!
- Legal.
- Você não vai perguntar o que é?
- Ahn. Que que é?
- Grosso.

- Cê é chato.
- Aff.
- Não sei por quê ainda sou sua amiga.

- Cê fez o trabalho?
- Fiz.
- Deixa eu copiar?

- Nossa, que mer@#¨!*. Vou tirar uma foto disso.
- Tá gata?
- Tá.
- Põe no Facebook.

- Chato.

- Tô de TPM.
- Vish.

- Páaaaaaaaraa!
- Coisa feia.
- Coisa chata.
- Fedô.

- Você não aceita de jeito nenhum, nem pensa se quer, na possibilidade de pedir desculpa? Você não é o centro do mundo. Você tá complicando tudo isso, que seria uma coisa tão simples, só porque você não enxerga de jeito nenhum que o errado é você. Você que errou. Peça desculpas. Por que prolongar tanto essa história que já podia estar resolvida? Pelo seu orgulho idiota. Abre o olho. Acorda pra vida. Pelo amor de Deus.
- ...
- Você é a pessoa mais orgulhosa que eu já conheci. Isso vai te trazer muitos problemas. Já traz. Como minha mãe fala, você ainda vai sofrer muito na vida.
- Legal. Tchau.
- Ainda não sei por que continuo falando com você. C#.

- Não tô mais falando com você.
- Então por que falou isso agora?
...
- Falei que não ia mais falar com você e hoje é o dia que mais conversamos.
- Hahaha.
- Ainda tô brava.

- Escreve uma poesia pra mim?
- Tenho que estar inspirada.
- Você escreve pra todo mundo e não escreve pra mim. Beleza.
- Eu vou escrever, fica tranquilo.

- Pára de fazer psiiiu pra mimmmm!

- Cê viu o vídeo lá no Facebook?
- Vi.
- Então por que não curtiu?

- Bom dia.
- ...

- Não olha pra ele dando risada assim!!! Ele vai perceber que era pra ele.
- Era a intenção.

- Nossa, cheira isso aqui, ficou até com o cheiro dele.
- Nossa!

- Cê é gay.

- Cê me marcou por último naquela postagem, né?

- O quê eu vou falar no trabalho de História???? Tô desesperado. Vou ler o papel.
- Vai bos#!@ nenhuma. Daqui que eu vou escrever o que você tem que falar.
... 
- O quê que tá escrito aqui?
- "Representantes políticos das províncias".

- Me dá um Kinder ovo? Me traz alguma coisa da viagem? Me compra um churros? 

- Owwwn, que correio elegante lindo!

- Olha minha corujinha!
- Parece um pinguim!

- Posso juntar pra fazer o exercício?
- Pode.

- KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Que mer#@!*

- Estraga prazer!

- Fala uma cor de esmalte.
- Azul.
- Quê azul?
- Azul sky. 
- KKKK
- Blue blue.
- Que gay.



(Gláucia Minetto Martins)

11 de novembro de 2012

Como um segredo, o mistério



Eu vejo você
fazendo o que mais há para se fazer:
ser feliz.

Talvez seja apenas ilusão
proporcionada pelo sorriso
que as suas fotos retratam.

O sorriso ao lado dela.
E quem mais há de ser?
Alguém que te aceitou
como você é
como você merece.

Eu não chamei-o de amor
eu não poderia mentir
nem a você,
nem a mim mesma.

Eu te perdoo
por todas as aflições que me fez passar
e peço o seu perdão
por todas as lágrimas que lhe proporcionei

Sinto que você absolveu-me da tua vida
com razão.
Mas sinto também
que esta não é total.
Você ainda pensa...
E pode me dizer isso
com todas as letras.
Não é incômodo algum
apenas mistério.

O mistério que nos persegue
dia e noite.
Como um segredo, nos une.
Que não nos deixará jamais
e talvez possa revelar-se
quando não formos mais
que meros caixões.

(Gláucia Minetto Martins)

6 de novembro de 2012

Desculpe o acesso


Há quem se acha tão importante no meio dessa imensidão que é mundo, que, dentro das pequenas mentes atrofiadas, pensam, iludidos, que as pessoas com as quais envolveram-se jamais poderão ficar bem com outras. O ego é tanto, que em sua visão, todas as pessoas mudam diante de sua companhia e jamais poderão recuperar-se.
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(Gláucia Minetto Martins)

1 de novembro de 2012

O que a noite nos reserva



À noite, tudo se intensifica.
A noite, a tudo alucina.

A noite é o ápice das horas,
o luto pelo amor 
e a trégua dos aflitos.

É sangue 
que borbulha nas veias.
É recuo,
é descanso.

À noite tudo perde a conduta
tudo vira roleta russa.
A noite rouba o lugar onde vivemos
toma-o e ocupa-o com o espírito negro
de todos os sentimentos
e de todas as permissões.

À noite,
Capitu pode trair Bentinho
porque tudo está à flor da pele.
Tudo é chaga aberta
tudo pulsa e espera.

(Gláucia Minetto Martins)

5ª edição da Corrente Literária. O tema, "o que a noite nos reserva?"

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