28 de outubro de 2012

Eu vou


Eu poderia estar 
em todos os lugares.
Só é possível estar
por onde você passa.

Eu vou estar.
No sofá que te aconchega
na tv que te distrai.
Eu vou passar no telejornal.
Garota do tempo
prevendo se chove
no seu coração.
E se o sol for forte
sou água pra te ver
sobreviver

Se eu quiser 
eu vou estar.
Na calça que te veste
ou somente
no cabide ou guarda-roupa
que guardam as roupas 
que você tanto gosta

E se você não abrir
o eu-guarda-roupa
e sair na rua
do jeito que quiser,
serei cela também
mantendo-te ali.
Eu serei o chão gelado
sem travesseiro.
Pra te lembrar
que o mundo tem regras

E amar não é uma delas.
É consequência
da existência ingrata
do nosso insistente
coração,
a latejar.

E eu só vou estar.

(Gláucia Minetto Martins)

26 de outubro de 2012

A viagem sem destino



As estrelas são o teto do navio
Podem ouvir-me gritar
Bem fundo, dentro de minha alma

Eu posso pendurar-me no convés
Eu posso querer que tudo acabe
Mas há uma mão que me resgata.
Vi a vida nos olhos que fitaram-me
Vi tudo o que não sou
E o que não posso ser...

Ergui-me na força
Que foi-me entregue
Provei do gosto
Das ágeis asas da liberdade

Mas o frio, cruel, surpreendeu-nos
Não podemos continuar
O desespero nos cega
E o violino cerca a doce morte

Escolhi ficar
Deixar-me contigo
Pois minha vida infértil
Pode apenas reverter-se perante a tua

Mas não posso salvar-te
E a vida esvai dos teus olhos
Episódio desfocado
Diante do meu corpo trêmulo

Sobrevivo, mas carrego teu nome
Pois sem ele sou ainda menos
Do que fui antes dos teus olhos

Agora vivo
Alimento-me da tua lembrança
E sei, quase sem saber
Que um papel, perdido por entre as ondas
Ostenta uns traços frágeis,
A minha nudez,
Acompanhada do Coração do Oceano.

(Gláucia Minetto Martins)

Escrevi esse poema baseada no filme "Titanic", para apresentá-lo no evento "Ler e Cantar É Só Começar", da escola onde curso o Ensino Médio. Esse ano, o tema foi "Teatro, Cinema e TV".  

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17 de outubro de 2012

Poema maldito


Desculpa se eu não posso esquecer
Se eu quero chorar toda vez em que penso em você,
E me vêm essa saudade de quando eu poderia ter feito mais.

Desculpa se eu sou covarde e nunca lhe disse nada 
Se eu te guardo em minhas entranhas 
E você nem se quer tem conhecimento do que se passa...
Apenas pode nutrir uma suspeita
E rumores das más línguas.

Me perdoa se te prendi comigo
A cadeado em minha mente 
Se você, aí dentro, passe fome e sede
Pois eu não posso entrar nessa jaula secreta
Pois então teria que lhe encarar
E explorar assim o que me assombra.

Desculpa se o que eu sinto, ou digo sentir,
É uma mentira.
Se são apenas tolices da minha cabecinha ociosa.

Desculpa, se preciso, 
Mas não quero largar
A tua mão imaginária,
E aceitar de uma vez
Que jamais poderei dizer-lhe, ou ouvir
Tudo o que vi em sonho.

Me perdoa, só isso.
Me perdoa por tudo o que não foi
E não estava destinado a ser.

Me perdoa por essas lágrimas 
Que já quase transbordam
No fim desse maldito poema.

.(Gláucia Minetto Martins)

7 de outubro de 2012

Paz



Não posso te ver 
Eu fecho os meus olhos
 E o seu rosto brinca com o meu... 
O teu chamado. 

 A nossa história
 Está também nos espelhos do céu 
Esses que refletem os passos
 Das nossas crianças

 O meu corpo não pode aguentar
 Os seus ombros não podem segurá-lo 
Diante da força dos meus músculos
E da minha emoção. 

 Nossas frontes estão unidas
 Como elo inquebrável 
E as frontes das nossas almas 
Unem-se desde sempre 
Até que a última lágrima caia
 Que a última célula esmoreça
 E além... 
Além do que podemos sentir.

 As tuas mãos
Templo do nosso amor, 
Das tuas ações
 As quais não lhe nego, 
Lhe sigo 
Giro em torno. 

 A paz é pássaro 
Que mantém livre nossos dias 
Batendo suas asas 
 Em cada segundo dessa união

.(Gláucia Minetto Martins)

6 de outubro de 2012

Apesar



Antes que a cova encarregue-se do meu corpo
Não poderei caminhar
Por todas as terras que sonhei
E não terei tempo para todas as histórias
Que moram nos livros dos quais sou sedento.

No desenrolar monótono dos meus dias
Acabo por entender, então
Que a vida é apenas vontade.

A tal liberdade
Frente aos meus olhos não é nada.
Se eu sair para ser qualquer coisa
À tardinha preciso voltar para casa.

Basta manter a verdade sempre intacta
Para que no fim, tudo esteja leve.

Não importa o que se queira
A alma nunca ficará completa.
Apenas vivo o roteiro que aprendemos
Organizando-o de acordo com meus traços.
Obtendo pequenos prazeres que fazem-me
Apesar de tanto, feliz.

(Gláucia Minetto Martins)

Essa é mais uma contribuição para a Corrente Literária, dessa vez com o tema "O que vale a pena ser?"