28 de agosto de 2012

Apenas esqueça-me


Não se engane, amor
Não esqueça dos seus sonhos,
Cobrindo-os com os meus

Não imponha-me padrões
Aceita-me, teu próximo
Ama-me como a ti mesmo
Mas não esqueça és meu também
Próximo
Amigo, mistério

Esqueça-me por muitos anos, amor
Viajando pelos mares
Terras e civilizações...

Excursão pelo tempo
Pela solidão
Por pensar no teu existir
E apenas isso

Anda pelos lugares
Que sempre estiveram em seus sonhos
Como alguém que caminha por entre as lápides
Sozinho, o coração a pesar no peito
E a sensação de alívio, que a tudo limpa

E mesmo que olhe para trás,
Que seus pés não mudem de direção.
Por favor, amor.

(Gláucia Minetto Martins)

22 de agosto de 2012

A convivência


Estive pensando 
Como nossos sentimentos são irremediáveis.
Como sem querer ou parar pra pensar
Amamos o mundo em que vivemos.

O sentimento bom ao ver um pôr-do-sol
Ouvir a chuva caindo lá fora,
Pra lavar toda mancha
Que insiste em grudar nos nossos dias
É nossa humanidade
Nossa fragilidade e ponto forte.

A água, o mar
O sol, as nuvens, as estrelas...
O céu.

A grama, a brisa quente,
O mar. 
O mar, aliás
É como o amor da mulher pela maternidade...
Mesmo se ainda não contemplamos
O rosto sempre perfeito de nossos filhos,
Já amamos.
Esperamos, calmamente
Pelo encontro.

O nosso amor pelo mundo
Pela Pátria (mesmo às vezes renegada)
É certo.

Podemos ser solitários
Frios, desagradáveis...
Mas em nosso coração há sempre algum sulco
Marca ou elevo 
Que assemelha-se aos nossos continentes...

(Gláucia Minetto Martins)

20 de agosto de 2012

Os sentidos, a escravidão


A tua sinceridade
Navalha na carne
Lágrimas amargas
Soluços no escuro

Ser
Apenas ser...
Por um segundo
Abraçar o que te cerca
As horas, a vida, a sede
Incansáveis,
Intoleráveis.

Pelo menos uma vez
Esquecer os pensamentos
Que te levam
Pra longe, longe
Longe, perto

Esquece e volta então
Puramente indefeso...
Transparente

Viajando pela fragilidade
Dos sentidos.

(Gláucia Minetto Martins)

14 de agosto de 2012

"O que dura pouco para você?"


Eu preciso
do que me faz viver
empurrar a Terra com meus pés
proferir as palavras que nos guiam

Eu preciso da misericórdia
desse ar que respiro.
Preciso dos gostos que põem-me de pé.

Da água
que leva todos os segredos em garrafas...
Os homens para casa,
os navegantes pelas estrelas.
Do mar.

Preciso sempre
dessa rota, zig zag, vai e vem
dos assuntos
e conversas ao léu
a moldar todas as convicções.

Do cifrão...
Melancolicamente...
pra ser independente
da moléstia suja
desse mundo estranho.

Eu preciso a cada dia
manter-me bem comigo mesmo.
Cultivar meu rosto
as linhas que o desenham
além dele, meu corpo
curvado ou ereto
que suporta e clama...

E a mais que tudo
mais que o que me mantém nesses trilhos...
Preciso de toda a alegria
dedicação de uma vida...

Da água que viaja pelo seu corpo
do ar que entra e sai,
exigente.
Do seu rosto
dos teus traços

Da tua atenção,
respeito
olhar...
Da tua alma.

Preciso cuidar dos teus trilhos.

E o que dura pouco de tudo isso
é essa viagem de trem
que quem embarca
somos nós.

Duramos pouco um ao outro
limitados pela força do nosso querer íntimo...
Mútuo.

O que dura pouco
somos nós mesmos.


Essa é a minha contribuição para a Corrente Literária.

11 de agosto de 2012

Contrastes: Ardência


Viajo nesse mundo
vim só, vou-me só 
sinto na carne cada tapa
corte à navalha
que os teus dedos-palavras
oferecem a mim

Suporto calada 
cada átomo persistente
do nosso existir,
coexistir

Meu corpo se retrai
meus seios a tudo suportam
habitando meu peito,
símbolo de minha sina
de mulher

Todo fogo que arde no peito
angústia
amor
alegria
mantém em movimento
o moinho dos meus dias

Foto


Esse poema, juntamente com o anterior, são contrastes que no fim do dia são o mesmo tipo de tortura. De tanto arder chega a doer. 

Contrastes: Dor


Não me importo
com mais nada
além disso aqui
Do meu choro
minhas lágrimas
que não cessam
não me deixam...

Não me importo
me importando
com a vida
As pessoas 
os pensamentos
que nos esquecem.

Eu quero parar
ser mais que isso
ver além

Preciso viver para sempre
nessa ilusão de apego
afago
amigos

Que eu não quebre jamais
essa teia que construí sobre meus olhos
que eu viva na esperança
no aconchego, no centro
desse ninho de dor

Não me pergunte
não se preocupe
apenas flutue
nessa nossa eternidade 
Dê-me o tempo...
Para esquecer

2 de agosto de 2012

Benzinho



Meu anjo
meu amor
meu querido
e tudo o mais
que te declaro
meu.

Querido, perdi-me
na imensidão melancólica
da saudade.
Pensamentos poetas,
imperfeitos.

Meu doce,
meu côco.
carinho,
mô,
amante.

O teu olhar é meu...
Foram moldados aos meus olhos
os teus.

O negro do teu fitar:
a hipnose a brincar
comigo...
E com a mente,
viva, a suspirar.

Eu nasço e morro
vivo e morro
nas tuas mãos,
meu bem

Bem fique
bem viva
bem fale.
Bem morra, também.

Bem.
Meu bem.


24/07/2012