5 de junho de 2012

Como eu pedi a Deus


Minha cama é consolo mútuo. Me abraça apertado com seus braços feitos de lençol branco. Suspira a cada vez que reviro e me aconchego.
Sou um homem, quase um velho... Difícil de aceitar. Clichê falar que na adolescência tudo era mais fácil e mais bonito.
Aliás, essa minha velha amiga, a adolescência, me foi uma droga injetada na veia. Todo o tempo que passei nesse seio alucinógeno foi a mais doce ressaca dos meus dias.
É estupidez lembrar do mundo como era e lamentar os sóis nascentes, incansáveis. Jogo a coberta para um lado, faço uso do cinzeiro feio e rachado, presente daquela tia velha. 
O relógio diz que é hora de tomar vergonha nessa cara suja e ir arranjar um emprego. A preguiça é maior, esqueço a incômoda ideia. Pego o jornal meio amassado, jogado em cima do criado (como tudo o que há nesse fétido apartamento, esquecido, jogado às traças e às moscas, mergulhado sem fundo no escuro desse lar, Lar Doce Lar).
Chove lá fora (mais um clichê - odeio essa palavra. Palavrinha nojenta. Todo mundo sente, que se danem os clichês).
Eu poderia fazer com que isso aqui fique cheio de parênteses. Posso livremente me entupir deles. Quero que haja parênteses até que você não saiba onde é que tudo começa. 
Ou não posso. 
Posso não querer coerência, nexo, drama, beleza. Assim como os clichês, que se danem os sentidos. 
Chove lá fora. 
Isso é um conto. Um conto sem fim.
Chove lá fora. E que sentido tem a chuva pra você? É clichê?
Aqui tenho o direito de usar a chuva sem ligá-la a nenhum pensamento chato. Ligue-a você.
Não quero falar com ninguém. Meu apartamento é ilha deserta, cofre bancário (mas sem riquezas, a não ser que esse homem - já com rugas - valha alguma coisa).
Meu tédio é alimento. Meu cigarro é canção. A fumaça é neblina e minha cama é todo-dia.
O que você pode querer? 
Sozinho. Definhando alegremente. Assim como pedi a Deus.

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