26 de dezembro de 2012

Os laços, a família


Em meio aos anos que passaram
me veio a saudade
que arrebata o peito.
A vontade de abraçar forte
de um jeito que nunca escasse.

Um abraço em que a força dos braços
seja equivalente à do coração
Que bate, transbordante de alegria
e amor à mais linda das alianças...
A família.

O amor presente na cumplicidade
Amizade, criada do nada
quando se é criança.
E desde então a relação de conforto
nessa presença especial
jamais acaba

Entristece-se a pensar
no quanto tem que se esperar
pelo próximo abraço
E promete-se com amor
que este será inesquecível
e na mente, infinito.

(Gláucia Minetto Martins)


19 de dezembro de 2012

Eu, você, as nuvens e a estrada


As rodas do ônibus iam girando
a estrada ia passando
Eu olhei as nuvens...
Parecia que estávamos acima delas

Você me viu fixa
em algum ponto ao longe
para fora da janela
e tentou decifrar meu rosto
sem suspeitar da emoção
que havia dentro de mim

As nuvens estavam perfeitas
eu podia vê-las por inteiro
Eu podia sentir 
as moléculas de água
só com o olhar

Não decifrando minha expressão
você achou-me louca
Pensou, então
em olhar pra fora

Eu sei que você viu as nuvens
que eu contemplava
mas sei que não viu
a magia da estrada
e a magia das nuvens
que estavam tão longe 
e tão perto

É assim a nossa relação...
Você vê o que eu vejo
mas não enxerga 
o que eu posso enxergar

Te perdi
Nós nos perdemos
quando selamos 
o que não devia ser selado

Ainda temos uma ligação
eu ainda preciso do teu abraço
Naquele dia 
eu quis sair correndo 
e deitar no seu colo 
mas, por mais que eu o fizesse,
suas células, o seu corpo
estavam lá...
Mas sua alma se foi para mim

Meus pêsames a nós
Quem sabe um dia
encontremo-nos no céu
dos amores inacabados

(Gláucia Minetto Martins)
.

Uma tarde, há muito



Baby, você ficou sozinha.
Nos dias frios
você encolheu-se
e ficou só.

Baby, eu me lembro
eu empaco
e posso remoer
a imagem alucinógena
dos seus ombros se encolhendo
no exagero do ar-condicionado.

Eu posso estar aqui,
e você nem tão distante
mas nossas mãos
há muito estão frias
do calor que houve
enquanto estavam juntas...

Os nossos corpos
já não clamam por união
tanto quanto antes.
Mas nos dias de chuva é ainda pior
e a mente, então, conhece
o tênue espaço
entre a lucidez
e a loucura.

Amor,
eu queria...
Eu quero...
Eu preciso disso
eu preciso de nós dois
naquela tarde frenética
em que você me ensinou
como a calma pode existir
nos, então recentes, beijos.

Você ensina-me,
tendo ensinado-me
a vida
e as malícias que descobri
em uma tarde, uma existência.

(Gláucia Minetto Martins)

15 de dezembro de 2012

Clarissa



- Fecha os meus olhos, Clarissa.
E as pálpebras dele fecharam-se ao toque das mãos dela.
- Com os olhos fechados eu consigo sentir o som do mundo, das coisas que se movem...

(Gláucia Minetto Martins)

10 de dezembro de 2012

Vazio

Vou embora
vou deixar a casa
vazia

[






























































































































]

igualzinho ao seu coração.

(Gláucia Minetto Martins)

Por Jonathan de Brito


Se atenha a mim com seu vestido liso
Que cintila serenidades da profundidade
De um sorriso de crianças em riso
Deliciando-se à melodia da alvorada.

As mais remotas paixonites de criança
Em teu abraço se materializam.
E o sarau de toda lembrança
Vai-se indo a um canto de ciranda.

Todas as flores se abrem
Ao sentir passar o véu suave
Que teus doces perfumes conduzem...

Todas as noites instigam a harmonia
De nossas inocentes carícias
Roçando os corpos até chegar à luz do dia...

(Poema escrito por Jonathan de Brito)

Sobre o beijo que não tivemos


Quanto pesa aquele beijo que não lhe dei?
Você se lembra?
O gosto da sua boca que nunca provei
indo de encontro à minha
Os lábios formigando pelo desejo
à menina que desabrocha
aos catorze, feito flor, 
que precede o fruto
no sereno da manhã, sorrindo para o sol

A carne que cega a razão
mas não o pensamento
que liga-se, então 
à mais bela e perigosa tentação 
que torna-nos humanos.

Os sentidos aguçados
tato, paladar
concentram-se
ignoram qualquer fator externo
aliás, a ignorância do desejo.

O peso do beijo que não lhe dei
é grande e incômodo
e o preço é o fardo...
A impiedosa e miserável
imaginação...

(Gláucia Minetto Martins)

Procurada


De vez em quando
uma saudade me cutuca.
Inconscientemente, lhe dou um tapa
e ela sai voando.

Eu nem percebo
o quanto ela cresceu 
nos últimos tempos.
Alimentou-se bem, a espertinha.
Aproveita as migalhas de mágoas
mau-humores
preguiças e desânimos
que deixo cair ao longo do caminho.

Ela está ficando forte.
Atordoa-me à noite,
puxando meu pé
que às vezes escapa
para fora do cobertor.

É a saudade do que fui
dos pensamentos que eu tinha
das coisas mais claras
que eu escrevia.
A saudade da menina
que era ainda mais menina
vivendo talvez, um pouco mais
na emoção e leveza
de ser.

Apenas era.
Mesmo com umas lágrimas aqui,
outras acolá
e umas risadinhas na carteira da frente.
Era
e ficou.
Perdeu-se no caminho
da escola para casa.

Ela está lá
vagando pelas ruas
mas o pedaço dela
que ficou no corpo
continua.

Ele lembra-se da menina
escreve sobre ela, então.
E procura desculpas
por tê-la deixado partir.
A melhor que encontra é
"eu cresci".

(Gláucia Minetto Martins)



6 de dezembro de 2012

Vamos falar sobre o fim do mundo



Se o mundo acabar, o que é que eu fiz de bom? Nada. E se eu morrer amanhã, de infarto, acidente de automóvel? E se um avião cair no meu telhado? Eu só pensei. Eu só mexi os dedinhos em um teclado, remoendo as coisas que valeriam a pena que eu fizesse, caso o mundo acabasse em dezembro.
É sempre assim. Se eu fosse fazer o que quero antes de o mundo acabar, precisaria ser feito cinco minutos antes, pois eu não aguentaria viver uma hora, ou mais, tendo dito o que guardo comigo. 
Se as coisas precisam ser feitas no último minuto de nossa existência, pra não ver as consequências, a coisa tá feia. Isso nunca será feito. 
Porque o mundo não vai acabar em dois mil e doze.

(Gláucia Minetto Martins)

Bagunça de estante



(Gláucia Minetto Martins)

Corrente Literária, 6ª edição. "Me conta um pouco sobre essa saudade..."

5 de dezembro de 2012

Mente-se


Mente-se
desordenadamente...
A vida não tem 
como mais importante característica
a pequenez
de sua duração.
Contemplemos a longevidade de vida
pacientemente.
Bem melhor
que fazer tudo 
sem respirar.
Não respira-se 
apenas em um momento...
Aquele, da paixão.
O resto 
é tempo
de amadurecer.
Uma década não é pouco
e até o pó
há várias delas
pra que se plante
e que se colha
E mesmo com o tempo farto
pode esperar,
não dá tempo
de enjoar.

(Gláucia Minetto Martins)

26 de novembro de 2012

Os pássaros e as folhas


Deitada em minha cama
olho pela janela.
Vejo os pássaros passarem
e a árvore que perde as folhas
no luto do outono.
Eu vejo
a vida passar pela minha janela
que dá pra rua
e por isso ostenta sempre
um cadeado.
Pois então,
os pássaros
e as folhas
só passam e só caem
aqui dentro
do meu coração.

(Gláucia Minetto Martins)


A primeira vez em público (A viagem sem destino)



Escrevi esse poema baseada no filme "Titanic", para apresentá-lo no evento "Ler e Cantar É Só Começar", da escola onde curso o Ensino Médio. Esse ano, o tema foi "Teatro, Cinema e TV".  
Apresentei-o ao lado de João Vitor Zaghi.

Leia o poema aqui.

.

19 de novembro de 2012

O amor primogênito


O amor me parece
me aparece
o amor ilusório, talvez
(mas quem garante que o primeiro deles,
por mais tolo,
não seja realmente amor?)
e alguém o esquece?
O qual foi-me entregue.

Tal amor que descartei
pisoteei, com vergonha nos olhos.
Esse que agora
me pesa pesa no peito
judia-me
e faz-me voltar sempre
a atenção para a vida alheia
esta que invadi
mas não colhi um fruto sequer.
E hoje, por mais putrefato que possa ser
eu o quereria.

(Gláucia Minetto Martins)



16 de novembro de 2012

Na parede



Escrevi na parede da tua casa
pichei mesmo, lide com isso
Pra que você, sempre que chegar
cansado de um dia de trabalho
ou de boemia
Veja os versos
toscamente escritos no cimento
e saiba, quando deitar na cama
que lá fora
na parece da tua casa
palavras ecoam
o quanto eu gosto de você.

.

15 de novembro de 2012

Chega a hora

É meu bem, não podemos evitar
a hora do acerto de contas
o passado bate à nossa parte
traz junto o medo inútil.
E no fim,
o vazio
o desconforto.
Mas a sensação
de estar tudo em pratos limpos.
Não há nada a pagar.
.
(Gláucia Minetto Martins)

Eu vou passar três dias fora



Eu vou passar três dias fora
Quase não quero ir embora
Mas a mala já tá pronta
E o passaporte tá esperando
No fundo da gaveta.

Eu vou passar três dias fora
Vou pensar em cada pétala
Do jardim que querem cultivar
No quintal do meu coração.
Cheio de rosas
Jasmins, margaridas, girassóis
E querubins.
Feitos de pedra,
Brincam de ciranda.
Esse jardim é só disfarce
Pros cadáveres enterrados
Na profundeza do solo árido
Do meu coração.

Tão querendo me esconder
Me fazer acreditar
Que o tempo vai curar.
Tempo, querido
Erva curativa
Eu conheço o teu poder
Mas me deixa,
Só um pouquinho
Aqui quietinha
Não me deixa esquecer a intensidade do hoje
Que sempre parte depois da noite de sono.

Eu vou passar três dias fora
Vou eu mesma cultivar o meu jardim
Não vou deixar nenhum estranho
Regar o que vive aqui dentro de mim.
Vou eu mesma conversar com o tempo
Fazer um chá da tarde
Oferecer-lhe biscoitos
Faremos acordos
E eu sairei com o melhor jardim
E o melhor tic tac
De todos os tempos

Porque não vou deixar
Que os três dias virem nove
Nem dez,
Nem dezessete.
Vão virar o meu refúgio
Acatando a minha fuga
E quando voltar,
Tudo estará
Em seu devido lugar.

.(Gláucia Minetto Martins)

14 de novembro de 2012

Amizade

- Tou super, super, super feliz!
- Legal.
- Você não vai perguntar o que é?
- Ahn. Que que é?
- Grosso.

- Cê é chato.
- Aff.
- Não sei por quê ainda sou sua amiga.

- Cê fez o trabalho?
- Fiz.
- Deixa eu copiar?

- Nossa, que mer@#¨!*. Vou tirar uma foto disso.
- Tá gata?
- Tá.
- Põe no Facebook.

- Chato.

- Tô de TPM.
- Vish.

- Páaaaaaaaraa!
- Coisa feia.
- Coisa chata.
- Fedô.

- Você não aceita de jeito nenhum, nem pensa se quer, na possibilidade de pedir desculpa? Você não é o centro do mundo. Você tá complicando tudo isso, que seria uma coisa tão simples, só porque você não enxerga de jeito nenhum que o errado é você. Você que errou. Peça desculpas. Por que prolongar tanto essa história que já podia estar resolvida? Pelo seu orgulho idiota. Abre o olho. Acorda pra vida. Pelo amor de Deus.
- ...
- Você é a pessoa mais orgulhosa que eu já conheci. Isso vai te trazer muitos problemas. Já traz. Como minha mãe fala, você ainda vai sofrer muito na vida.
- Legal. Tchau.
- Ainda não sei por que continuo falando com você. C#.

- Não tô mais falando com você.
- Então por que falou isso agora?
...
- Falei que não ia mais falar com você e hoje é o dia que mais conversamos.
- Hahaha.
- Ainda tô brava.

- Escreve uma poesia pra mim?
- Tenho que estar inspirada.
- Você escreve pra todo mundo e não escreve pra mim. Beleza.
- Eu vou escrever, fica tranquilo.

- Pára de fazer psiiiu pra mimmmm!

- Cê viu o vídeo lá no Facebook?
- Vi.
- Então por que não curtiu?

- Bom dia.
- ...

- Não olha pra ele dando risada assim!!! Ele vai perceber que era pra ele.
- Era a intenção.

- Nossa, cheira isso aqui, ficou até com o cheiro dele.
- Nossa!

- Cê é gay.

- Cê me marcou por último naquela postagem, né?

- O quê eu vou falar no trabalho de História???? Tô desesperado. Vou ler o papel.
- Vai bos#!@ nenhuma. Daqui que eu vou escrever o que você tem que falar.
... 
- O quê que tá escrito aqui?
- "Representantes políticos das províncias".

- Me dá um Kinder ovo? Me traz alguma coisa da viagem? Me compra um churros? 

- Owwwn, que correio elegante lindo!

- Olha minha corujinha!
- Parece um pinguim!

- Posso juntar pra fazer o exercício?
- Pode.

- KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Que mer#@!*

- Estraga prazer!

- Fala uma cor de esmalte.
- Azul.
- Quê azul?
- Azul sky. 
- KKKK
- Blue blue.
- Que gay.



(Gláucia Minetto Martins)

11 de novembro de 2012

Como um segredo, o mistério



Eu vejo você
fazendo o que mais há para se fazer:
ser feliz.

Talvez seja apenas ilusão
proporcionada pelo sorriso
que as suas fotos retratam.

O sorriso ao lado dela.
E quem mais há de ser?
Alguém que te aceitou
como você é
como você merece.

Eu não chamei-o de amor
eu não poderia mentir
nem a você,
nem a mim mesma.

Eu te perdoo
por todas as aflições que me fez passar
e peço o seu perdão
por todas as lágrimas que lhe proporcionei

Sinto que você absolveu-me da tua vida
com razão.
Mas sinto também
que esta não é total.
Você ainda pensa...
E pode me dizer isso
com todas as letras.
Não é incômodo algum
apenas mistério.

O mistério que nos persegue
dia e noite.
Como um segredo, nos une.
Que não nos deixará jamais
e talvez possa revelar-se
quando não formos mais
que meros caixões.

(Gláucia Minetto Martins)

6 de novembro de 2012

Desculpe o acesso


Há quem se acha tão importante no meio dessa imensidão que é mundo, que, dentro das pequenas mentes atrofiadas, pensam, iludidos, que as pessoas com as quais envolveram-se jamais poderão ficar bem com outras. O ego é tanto, que em sua visão, todas as pessoas mudam diante de sua companhia e jamais poderão recuperar-se.
.
(Gláucia Minetto Martins)

1 de novembro de 2012

O que a noite nos reserva



À noite, tudo se intensifica.
A noite, a tudo alucina.

A noite é o ápice das horas,
o luto pelo amor 
e a trégua dos aflitos.

É sangue 
que borbulha nas veias.
É recuo,
é descanso.

À noite tudo perde a conduta
tudo vira roleta russa.
A noite rouba o lugar onde vivemos
toma-o e ocupa-o com o espírito negro
de todos os sentimentos
e de todas as permissões.

À noite,
Capitu pode trair Bentinho
porque tudo está à flor da pele.
Tudo é chaga aberta
tudo pulsa e espera.

(Gláucia Minetto Martins)

5ª edição da Corrente Literária. O tema, "o que a noite nos reserva?"

.

28 de outubro de 2012

Eu vou


Eu poderia estar 
em todos os lugares.
Só é possível estar
por onde você passa.

Eu vou estar.
No sofá que te aconchega
na tv que te distrai.
Eu vou passar no telejornal.
Garota do tempo
prevendo se chove
no seu coração.
E se o sol for forte
sou água pra te ver
sobreviver

Se eu quiser 
eu vou estar.
Na calça que te veste
ou somente
no cabide ou guarda-roupa
que guardam as roupas 
que você tanto gosta

E se você não abrir
o eu-guarda-roupa
e sair na rua
do jeito que quiser,
serei cela também
mantendo-te ali.
Eu serei o chão gelado
sem travesseiro.
Pra te lembrar
que o mundo tem regras

E amar não é uma delas.
É consequência
da existência ingrata
do nosso insistente
coração,
a latejar.

E eu só vou estar.

(Gláucia Minetto Martins)

26 de outubro de 2012

A viagem sem destino



As estrelas são o teto do navio
Podem ouvir-me gritar
Bem fundo, dentro de minha alma

Eu posso pendurar-me no convés
Eu posso querer que tudo acabe
Mas há uma mão que me resgata.
Vi a vida nos olhos que fitaram-me
Vi tudo o que não sou
E o que não posso ser...

Ergui-me na força
Que foi-me entregue
Provei do gosto
Das ágeis asas da liberdade

Mas o frio, cruel, surpreendeu-nos
Não podemos continuar
O desespero nos cega
E o violino cerca a doce morte

Escolhi ficar
Deixar-me contigo
Pois minha vida infértil
Pode apenas reverter-se perante a tua

Mas não posso salvar-te
E a vida esvai dos teus olhos
Episódio desfocado
Diante do meu corpo trêmulo

Sobrevivo, mas carrego teu nome
Pois sem ele sou ainda menos
Do que fui antes dos teus olhos

Agora vivo
Alimento-me da tua lembrança
E sei, quase sem saber
Que um papel, perdido por entre as ondas
Ostenta uns traços frágeis,
A minha nudez,
Acompanhada do Coração do Oceano.

(Gláucia Minetto Martins)

Escrevi esse poema baseada no filme "Titanic", para apresentá-lo no evento "Ler e Cantar É Só Começar", da escola onde curso o Ensino Médio. Esse ano, o tema foi "Teatro, Cinema e TV".  

.

17 de outubro de 2012

Poema maldito


Desculpa se eu não posso esquecer
Se eu quero chorar toda vez em que penso em você,
E me vêm essa saudade de quando eu poderia ter feito mais.

Desculpa se eu sou covarde e nunca lhe disse nada 
Se eu te guardo em minhas entranhas 
E você nem se quer tem conhecimento do que se passa...
Apenas pode nutrir uma suspeita
E rumores das más línguas.

Me perdoa se te prendi comigo
A cadeado em minha mente 
Se você, aí dentro, passe fome e sede
Pois eu não posso entrar nessa jaula secreta
Pois então teria que lhe encarar
E explorar assim o que me assombra.

Desculpa se o que eu sinto, ou digo sentir,
É uma mentira.
Se são apenas tolices da minha cabecinha ociosa.

Desculpa, se preciso, 
Mas não quero largar
A tua mão imaginária,
E aceitar de uma vez
Que jamais poderei dizer-lhe, ou ouvir
Tudo o que vi em sonho.

Me perdoa, só isso.
Me perdoa por tudo o que não foi
E não estava destinado a ser.

Me perdoa por essas lágrimas 
Que já quase transbordam
No fim desse maldito poema.

.(Gláucia Minetto Martins)

7 de outubro de 2012

Paz



Não posso te ver 
Eu fecho os meus olhos
 E o seu rosto brinca com o meu... 
O teu chamado. 

 A nossa história
 Está também nos espelhos do céu 
Esses que refletem os passos
 Das nossas crianças

 O meu corpo não pode aguentar
 Os seus ombros não podem segurá-lo 
Diante da força dos meus músculos
E da minha emoção. 

 Nossas frontes estão unidas
 Como elo inquebrável 
E as frontes das nossas almas 
Unem-se desde sempre 
Até que a última lágrima caia
 Que a última célula esmoreça
 E além... 
Além do que podemos sentir.

 As tuas mãos
Templo do nosso amor, 
Das tuas ações
 As quais não lhe nego, 
Lhe sigo 
Giro em torno. 

 A paz é pássaro 
Que mantém livre nossos dias 
Batendo suas asas 
 Em cada segundo dessa união

.(Gláucia Minetto Martins)

6 de outubro de 2012

Apesar



Antes que a cova encarregue-se do meu corpo
Não poderei caminhar
Por todas as terras que sonhei
E não terei tempo para todas as histórias
Que moram nos livros dos quais sou sedento.

No desenrolar monótono dos meus dias
Acabo por entender, então
Que a vida é apenas vontade.

A tal liberdade
Frente aos meus olhos não é nada.
Se eu sair para ser qualquer coisa
À tardinha preciso voltar para casa.

Basta manter a verdade sempre intacta
Para que no fim, tudo esteja leve.

Não importa o que se queira
A alma nunca ficará completa.
Apenas vivo o roteiro que aprendemos
Organizando-o de acordo com meus traços.
Obtendo pequenos prazeres que fazem-me
Apesar de tanto, feliz.

(Gláucia Minetto Martins)

Essa é mais uma contribuição para a Corrente Literária, dessa vez com o tema "O que vale a pena ser?" 

24 de setembro de 2012

Inteiro, aos pouquinhos


imagem

Eu quero.
Quero sempre, mais e mais
Andar por aí 
E olhar a rua pela janela,
A janela do seu carro.

As casas e lojas escuras
Dormindo lá fora
A igreja guardando
A fé e o apoio

Eu quero aprender a dirigir 
Te olhando.

Eu quero tomar um banho de realidade
Desde que você faça parte dela
Mas tem que ser por inteiro
Nem que seja aos pouquinhos.

(Gláucia Minetto Martins)

19 de setembro de 2012

Quem dera


Quem dera se um dia
Você, por mero descuido 
Rompesse essa armadura 
E me deixasse entrar por um instante
Nessas suas pupilas desatentas

Eu andaria por sua íris
Roubaria cada matriz
E viraria Van Gogh por um dia
Pra reproduzir em papel
A beleza dos teus olhos
Pra que ela fique, então
Eternamente gravada nos meus.

(Gláucia Minetto Martins)



Obra: 
Starry Night of the Rhone, Van Gogh

5 de setembro de 2012

A menina que roubava livros - Markus Zusak

Hoje, depois de acabar esse belíssimo livro, e admito, com lágrimas nos olhos, eu quis escrever uma sinopse desta história, como às vezes faço com livros que me cativam.
Porém, simplesmente não posso escrever nada. Só tenho uma coisa a declarar: esse livro me arrasa.

Não tem como não querer um livro com apenas essa informação sobre o conteúdo

"A Menina Que Roubava Livros é um livro emocionante, que nos tranporta entre a inocência da infância de uma criança e a realidade brutal e horrorosa de uma guerra, sempre nos lembrando que a felicidade está logo ao nosso lado e que devemos aproveitá-la ao máximo enquanto podemos. É uma obra-prima desse jovem autor australiano, que nos brinda com esta singela história construída no limiar entre a alegria e a tristeza, o amor e a desilusão." (retirado daqui)

Uma prévia



Markus Zusak, aquele que teve a ideia

(Gláucia Minetto Martins)

4 de setembro de 2012

Porta-menina


Em meu recesso
Solidão antecipada
Respiro, afasto-me
Prefiro sem querer

Esqueço-me, conformo-me
Guardo-me, aqueço-me
Ou esfrio-me, tanto faz
Apenas respiro
Ou asfixio-me.

Vago pela bruma 
Dos dias perdidos
Resfrio-me, aguardo-me.

Marco a História com risos
E alegria curtas, amenas
Que valem pouco
Mesmo se peças do quebra-cabeça
Do meu querer monótono

(Gláucia Minetto Martins)

28 de agosto de 2012

Apenas esqueça-me


Não se engane, amor
Não esqueça dos seus sonhos,
Cobrindo-os com os meus

Não imponha-me padrões
Aceita-me, teu próximo
Ama-me como a ti mesmo
Mas não esqueça és meu também
Próximo
Amigo, mistério

Esqueça-me por muitos anos, amor
Viajando pelos mares
Terras e civilizações...

Excursão pelo tempo
Pela solidão
Por pensar no teu existir
E apenas isso

Anda pelos lugares
Que sempre estiveram em seus sonhos
Como alguém que caminha por entre as lápides
Sozinho, o coração a pesar no peito
E a sensação de alívio, que a tudo limpa

E mesmo que olhe para trás,
Que seus pés não mudem de direção.
Por favor, amor.

(Gláucia Minetto Martins)

22 de agosto de 2012

A convivência


Estive pensando 
Como nossos sentimentos são irremediáveis.
Como sem querer ou parar pra pensar
Amamos o mundo em que vivemos.

O sentimento bom ao ver um pôr-do-sol
Ouvir a chuva caindo lá fora,
Pra lavar toda mancha
Que insiste em grudar nos nossos dias
É nossa humanidade
Nossa fragilidade e ponto forte.

A água, o mar
O sol, as nuvens, as estrelas...
O céu.

A grama, a brisa quente,
O mar. 
O mar, aliás
É como o amor da mulher pela maternidade...
Mesmo se ainda não contemplamos
O rosto sempre perfeito de nossos filhos,
Já amamos.
Esperamos, calmamente
Pelo encontro.

O nosso amor pelo mundo
Pela Pátria (mesmo às vezes renegada)
É certo.

Podemos ser solitários
Frios, desagradáveis...
Mas em nosso coração há sempre algum sulco
Marca ou elevo 
Que assemelha-se aos nossos continentes...

(Gláucia Minetto Martins)

20 de agosto de 2012

Os sentidos, a escravidão


A tua sinceridade
Navalha na carne
Lágrimas amargas
Soluços no escuro

Ser
Apenas ser...
Por um segundo
Abraçar o que te cerca
As horas, a vida, a sede
Incansáveis,
Intoleráveis.

Pelo menos uma vez
Esquecer os pensamentos
Que te levam
Pra longe, longe
Longe, perto

Esquece e volta então
Puramente indefeso...
Transparente

Viajando pela fragilidade
Dos sentidos.

(Gláucia Minetto Martins)

14 de agosto de 2012

"O que dura pouco para você?"


Eu preciso
do que me faz viver
empurrar a Terra com meus pés
proferir as palavras que nos guiam

Eu preciso da misericórdia
desse ar que respiro.
Preciso dos gostos que põem-me de pé.

Da água
que leva todos os segredos em garrafas...
Os homens para casa,
os navegantes pelas estrelas.
Do mar.

Preciso sempre
dessa rota, zig zag, vai e vem
dos assuntos
e conversas ao léu
a moldar todas as convicções.

Do cifrão...
Melancolicamente...
pra ser independente
da moléstia suja
desse mundo estranho.

Eu preciso a cada dia
manter-me bem comigo mesmo.
Cultivar meu rosto
as linhas que o desenham
além dele, meu corpo
curvado ou ereto
que suporta e clama...

E a mais que tudo
mais que o que me mantém nesses trilhos...
Preciso de toda a alegria
dedicação de uma vida...

Da água que viaja pelo seu corpo
do ar que entra e sai,
exigente.
Do seu rosto
dos teus traços

Da tua atenção,
respeito
olhar...
Da tua alma.

Preciso cuidar dos teus trilhos.

E o que dura pouco de tudo isso
é essa viagem de trem
que quem embarca
somos nós.

Duramos pouco um ao outro
limitados pela força do nosso querer íntimo...
Mútuo.

O que dura pouco
somos nós mesmos.


Essa é a minha contribuição para a Corrente Literária.

11 de agosto de 2012

Contrastes: Ardência


Viajo nesse mundo
vim só, vou-me só 
sinto na carne cada tapa
corte à navalha
que os teus dedos-palavras
oferecem a mim

Suporto calada 
cada átomo persistente
do nosso existir,
coexistir

Meu corpo se retrai
meus seios a tudo suportam
habitando meu peito,
símbolo de minha sina
de mulher

Todo fogo que arde no peito
angústia
amor
alegria
mantém em movimento
o moinho dos meus dias

Foto


Esse poema, juntamente com o anterior, são contrastes que no fim do dia são o mesmo tipo de tortura. De tanto arder chega a doer. 

Contrastes: Dor


Não me importo
com mais nada
além disso aqui
Do meu choro
minhas lágrimas
que não cessam
não me deixam...

Não me importo
me importando
com a vida
As pessoas 
os pensamentos
que nos esquecem.

Eu quero parar
ser mais que isso
ver além

Preciso viver para sempre
nessa ilusão de apego
afago
amigos

Que eu não quebre jamais
essa teia que construí sobre meus olhos
que eu viva na esperança
no aconchego, no centro
desse ninho de dor

Não me pergunte
não se preocupe
apenas flutue
nessa nossa eternidade 
Dê-me o tempo...
Para esquecer

2 de agosto de 2012

Benzinho



Meu anjo
meu amor
meu querido
e tudo o mais
que te declaro
meu.

Querido, perdi-me
na imensidão melancólica
da saudade.
Pensamentos poetas,
imperfeitos.

Meu doce,
meu côco.
carinho,
mô,
amante.

O teu olhar é meu...
Foram moldados aos meus olhos
os teus.

O negro do teu fitar:
a hipnose a brincar
comigo...
E com a mente,
viva, a suspirar.

Eu nasço e morro
vivo e morro
nas tuas mãos,
meu bem

Bem fique
bem viva
bem fale.
Bem morra, também.

Bem.
Meu bem.


24/07/2012