14 de outubro de 2011

O outro lado das memórias póstumas


Estou andando pela areia da praia nessa manhã vazia... Estou vendo o bater de asas no céu azul, ouvindo o choro do vento e o sussurrar do mar. Ele me chama para fazer parte dele, vagar pelos sete mares, ostentar seu azul nas ondas nervosas. Ele quer que eu o seja, e aceito o seu convite. Logo serei ponto de luz nas trevas ondulantes. É o alívio.

Talvez você nem saiba o quanto ainda vive dentro de mim. É algo infernal, cruel, quase doentio. Meu coração pulsa me trazendo vida, e o som de cada batida é seu jeito de gritar teu nome. Meu coração chora por você. Minha boca se fecha por você... Exílio das tagarelices do dia-a-dia, só possíveis ao seu lado.
Seu eu é meu eu, discreto e forte, que nunca desabita meu corpo, meus pensamentos. Você vicia, você não me abandona, mesmo a sua mão estando tão longe da minha. Quando fecho os olhos sinto sua presença. Quase posso te ver vindo ao meu encontro, como antes. Meu corpo inteiro chama por você.
Eu poderia estar de novo ao seu lado, rindo de nós mesmos, rindo de sua timidez, de seu rosto corado. Eu poderia estar te dando a mão, mexendo em seu cabelo, te apertando em sua indecisão, como adorava fazer, só pra deixar seu querer mais concreto. Eu poderia, eu queria ver teu rosto marcado, surrado, cansado, e fazê-lo contrair-se em risos sem sentido.
Queria te ouvir andando pela casa, e então dormir em paz, com a segurança da tua presença... Queria ainda, amparar esse teu abandono em que você se largava naquelas tardes vazias, e eu sei que apenas minha presença não lhe bastava. Não bastava nem a mim... Era a morte esse exílio torturante.
Queria poder me afastar de você novamente, só para reviver a beleza do reencontro, do olhar mais completo que você me deu, na última noite. Quero morrer de novo contigo, em febre alucinada, abandonar-me junto a ti. Queria estar com você quando seus olhos se fechassem. Queria ver teu corpo definhar como agora, ser o verme que te acaba.

Desculpe, Sr. Mar, preciso te deixar, prefiro continuar... Manter-me carne e osso, pois se não a mim, a quem dependerá a tarefa de eternizar o homem morto aqui e também longe da areia dessa praia?


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