29 de outubro de 2011

Órbitas de Saturno


Me imaginei
Imaginei a nós
Vidas dançando na imensidão do espaço
Corpos movendo-se ao som do ritmo insistente
Sorrisos que se voltam às causas simples
Pessoas admiráveis
Ideias incompreensíveis
Ironias macabras
Horas absurdas
E segundos incomparáveis
Corpos boaindo pelos anéis de Saturno
Pensamentos em conserva dos anos vividos.
Somos em conserva.

28 de outubro de 2011

Sempre melhor assim...



... Pois então eu quero o pior pra mim!

Me leva pra casa? Me leva pra casa mais cedo? Eu tenho causas... Cuidado ao tentar descobri-las, você pode desistir e ir embora. Assim, vai embora mais cedo também.
Me leva pra casa mais cedo? Tô com sono, tô com fome. Não vou beber. Enfia essa podridão onde bem entende.
Deixa eu voltar, mas não corre muito, ainda sou muito nova pra morrer. Me olha, aí com esses olhos hipnóticos, e dessa vez não me convence a ficar.
Me deixa na porta de casa, mas não queira entrar.
Fica com esse chiclete de menta ao invés de um beijo, entra no seu carro e segue pela Infinita Highway! É um preço a se pagar pelo pecado original.
Não tenta me convencer, me ensina a dançar na noite vazia, mas não me ensine a segurar o copo.
Sorri... Vai, sorria o seu sorriso mais lindo e me deixa! Não me obrigue a ir atrás.
Você saberia que eu seguiria seus passos, e me perderia nessa estrada sem fim.
É que no fim, eu quero mesmo é voltar pra casa mais cedo, abrir a porta e acender a luz da sala, dormir e continuar meu lero-lero cotidiano, madrugar com o galo velho e andar no meu ônibus pelas ruas da cidade, em busca do verde que me segura. "O Mérito e o Monstro", morrendo comigo na mão...
Eu deixaria tudo pra correr atrás dos meus desejos, mas são os desejos mais fugazes também.
Deixa o moinho da minha vida continuar girando e se não quiser esperar, fique à vontade, vai conquistar outras almas, inclusive a tua.
Eu vou continuar.


24 de outubro de 2011

Devaneio


Vou sussurrar em seu coração
Te devorar com minhas divagações
Conceder a nossa misericórdia...

Vou divagar pelos cantos escuros
Conversar com o anjo de pedra
E devagar espalhar as palavras pela noite

Divagar devagar
Devagar divagar...

Retiro


Já não quero mais andar
Nem olhar, ouvir
Tocar...
Só quero me recolher em minha concha
Remendar as lembranças mortas
Uma a uma, devagar
Só vou fixar-me no silêncio
Descansar do que me mata, corrói, machuca
Só vou dormir até cansar
É meu casulo hibernante
Escondido em algum lugar da casa.

23 de outubro de 2011

Sublime


Eu sei que você está lá na lua
Que passa seu tempo me olhando dormir
Andar, falar, e falar de você...

Eu sei que você tem saudade de pisar na grama do meu jardim
Estudar álgebra
Organizar nosso armário bagunçado
Passar a tarde contando histórias
Fazendo sujeira no meu quintal
Ir embora à tardinha
E balançar na rede da varanda enquanto escuta suas músicas perdidas...

Eu sei que você tem saudade de andar sem destino,
Sem lembranças - mas só por cinco minutos
Os caminhos se bifurcam, as portas estão fechadas
E seus olhos não vêem mais pelas fechaduras
Por quê? Por quê? É que já é tarde

Volta pra casa e reconstrói esses abismos do mundo,
Dos mundos, das nuvens, da sua mente...
Volta pra olhar as estrelas que salpicam o céu
Volta pra reclamar a chuva e o sol
E declamar versinhos desentendidos,
Descontentes.

Foto

20 de outubro de 2011

Roda anti-horária


Vêm, vêm pro café que preparei para nós
como tal, como igual.
Vêm pra falar de nada mais que essa arte que te move
vêm pra fumar um cigarro
Deixa seu chapéu em cima da mesa
bate a porta pra eu ouvir tua chegada
vêm sorrir pra minha casa solitária
minhas telas sujas
minha cama bagunçada
meu pedaço de pedra mal lascado
minhas linhas tortas no caderno velho
e os poemas-não poemas jogados na lixeira
Vêm, pra pisar no chão de madeira
pra nossa vida...
Vêm pra cantar o que te incomoda
e rezar a letra descompassada
Vêm pra sentarmos nessa mesa
e deixar as vaias lá fora
recolher os tomates do chão
E que nossa fome nunca passe.

Corvo


Vivo aqui com rostos, gostos
restos, gastos
manias e encostos.

Vivo aqui em alerta,
farta
cansada...
as lembranças não cansam de serem invocadas!

Encontro aqui a pena do passado quase esquecido
e a pena do pássaro perdido que canta em minha janela...
ele cantou-me que já não existo em outros corações
pois suspiram e cantam em outras sacadas
dão de presente jóias e marfim.

E de mim não resta nada...
fico aqui rimando
cantando a agonia eterna
ouvindo o barulho dos meus ossos a bater.

O passarinho bica meu telhado
trouxe em seu bico um ramo seco
como a alma que um dia me habitou
pois estou morta por dentro e por fora
ouvindo apenas ao longe o bater de meu coração.

E é aqui nessa tumba interior
que se encontra a face da verdade
e se agarra na raiz dos meus tempos.

18 de outubro de 2011

Por A.M.M.


"Estou aprendendo a conviver com a tua ausência, com o teu cheiro apenas na minha memória e não mais em minhas roupas, em meus cabelos, em meu corpo... Estou aprendendo a viver com meu coração partido, quebrado. Já tentei colá-lo, remendá-lo, mas não consegui, pois uma parte dele está com você ainda...
Estou aprendendo a seguir em frente, ou pelo menos tentando, pois parece que a cada passo que eu dou para frente, volto dois para trás.
Estou aprendendo a conviver com a saudade, com a dor, com o arrependimento...
A cada dia que passa, as lembranças de você, de nós, estão ficando cada vez mais distantes, e não sei se fico feliz por estar te esquecendo, ou triste por não estar lembrando tanto de você..."


Escrito por Ana Mostaço

14 de outubro de 2011

O outro lado das memórias póstumas


Estou andando pela areia da praia nessa manhã vazia... Estou vendo o bater de asas no céu azul, ouvindo o choro do vento e o sussurrar do mar. Ele me chama para fazer parte dele, vagar pelos sete mares, ostentar seu azul nas ondas nervosas. Ele quer que eu o seja, e aceito o seu convite. Logo serei ponto de luz nas trevas ondulantes. É o alívio.

Talvez você nem saiba o quanto ainda vive dentro de mim. É algo infernal, cruel, quase doentio. Meu coração pulsa me trazendo vida, e o som de cada batida é seu jeito de gritar teu nome. Meu coração chora por você. Minha boca se fecha por você... Exílio das tagarelices do dia-a-dia, só possíveis ao seu lado.
Seu eu é meu eu, discreto e forte, que nunca desabita meu corpo, meus pensamentos. Você vicia, você não me abandona, mesmo a sua mão estando tão longe da minha. Quando fecho os olhos sinto sua presença. Quase posso te ver vindo ao meu encontro, como antes. Meu corpo inteiro chama por você.
Eu poderia estar de novo ao seu lado, rindo de nós mesmos, rindo de sua timidez, de seu rosto corado. Eu poderia estar te dando a mão, mexendo em seu cabelo, te apertando em sua indecisão, como adorava fazer, só pra deixar seu querer mais concreto. Eu poderia, eu queria ver teu rosto marcado, surrado, cansado, e fazê-lo contrair-se em risos sem sentido.
Queria te ouvir andando pela casa, e então dormir em paz, com a segurança da tua presença... Queria ainda, amparar esse teu abandono em que você se largava naquelas tardes vazias, e eu sei que apenas minha presença não lhe bastava. Não bastava nem a mim... Era a morte esse exílio torturante.
Queria poder me afastar de você novamente, só para reviver a beleza do reencontro, do olhar mais completo que você me deu, na última noite. Quero morrer de novo contigo, em febre alucinada, abandonar-me junto a ti. Queria estar com você quando seus olhos se fechassem. Queria ver teu corpo definhar como agora, ser o verme que te acaba.

Desculpe, Sr. Mar, preciso te deixar, prefiro continuar... Manter-me carne e osso, pois se não a mim, a quem dependerá a tarefa de eternizar o homem morto aqui e também longe da areia dessa praia?


13 de outubro de 2011

Olha, eu tou tentando...


É que eu tou tentando te decifrar
colabora, por favor
continua jogando esses pedacinhos do seu eu
pra eu montar nosso mosaico abstrato.

É que eu tou tentando te tomar
eu tou tentando te querer
eu tou tentando te machucar
pra que você corra pro meu colo
tentando sarar suas feridas.

Eu tou tentando te ler
te revirando do início ao fim
mas tá difícil essas palavras cegas
sem seus olhos pra deitar e se esconder.


12 de outubro de 2011

Eu sou, eu vou, eu tento, eu grito


Eu sou o vilão de minha história
Eu busco a satisfação
A infelicidade
Eu busco o objetivo de um mundo limitado.

Eu sou o vilão de minha história
Eu sou como Leniza Máier
E vago pela corrosão de meus sentidos
Que consome a carne ao mesmo tempo que a faz vibrar.

Dez da noite



- São dez da noite.
- Ora, e o que é que tem isso?
- Nada, só são dez da noite.
- É... É noite de sábado. E que sábado mais sem graça... Nem a prostituta tá lá na esquina. Não tem ninguém na praça.
- Ouvi dizer que a prostituta foi embora.
- Por quê? Parecia que amava mais esta esquina que sua própria vida...
- Sei não, mas tão dizendo por aí que fisgou um homem rico, que já tinha filhos. Olha só! Vaca!
- É o amor dele que tirou-a daquela esquina.
- Amor ou gula?
- Sei lá.
- Vou falar de coisa boa. Se é que não encontro nada agora - e ri.

- São dez da noite.
- Ora, e o que é que tem isso?
- Nada, só são dez da noite.
- É a noite da partida da prostituta.
- Noite triste, vazia. Noite bêbada nesse bar, amigo.
- A noite da despedida.
- E não é que a rua sente falta dela, a vaca?
- É, sente.
- Pois agora ela deve estar rindo e tomando seu champanhe, na cama do pai de família.
- Despudorados.
- Ainda não, só são dez da noite.


A farsa do bem-viver


Os olhos já não vêem
Estão ardendo
Viajam, perdidos por essa inútil condição ignorante
Piscam, insistentes...
Esperam por algo que já não sabem
Vomitam sob essa morbidez fatal e enjoativa.
Esses olhos aqui presentes que deixam as luzes
E procuram o preto e branco do cinema
A imagem antiga, salva da podridão sem fim
Procuram o amor filtrado, esquecido, mas também despudorado.
Porém, os olhos deixam de beijar as belas curvas...
Preferem fechar-se, retrair-se
Cansados, buscam o sono eterno,
O beijo da morte...
Talvez a cegueira seja a morte do pecador
E o nascer do observador sensitivo,
Tradutor dessas nossas almas perdidas.

4 de outubro de 2011

Despedida


Eu ainda te vejo por aí
E já não me importo!
Não quero mais lembrar do que nunca existiu
É que na verdade
Nunca houve porquê se torturar...

Minha vida encontrou-se com outros olhos,
Outro sorriso,
Que me levam a caminhos que nunca pude imaginar.

São momentos tão pequenos
Que valem por mil...
Mas que jamais valerão os gastos com você.

Mas devo respirar,
E resgatar-me do fundo desse lago negro
Saber que tudo passou...
E não carregar mais dúvidas.

Talvez um dia as coisas me venham
Assim de repente, e saberei por onde começar...
Estou me retirando.

Então eu digo:
Até um dia,
Até algum momento perdido por aí...

Nada é à toa!
Eu voei ao meu encontro."

3 de outubro de 2011

Eu sei, e isso basta


Desdobra meu querer, baby
Vêm pro meu colo
Molda meus carinhos,
Minhas ações,
Meus traços ríspidos,
Meu jeito arisco
Que além de arisco é arriscado.

Volta desse passado vago
Faz o presente forte,
Como o gosto do meu sangue.
Porque eu sei, baby...

Eu sei que nós dois somos muito mais
Que eu e você...
Somos unha e carne, baby
Vida e retina.


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