15 de outubro de 2010

Frenesi


Não sei o que eu fazia andando naquele corredor... o horário das aulas já estava encerrado. Os cadernos pesavam em meus braços. Queria ir embora. "Não vá", dizia uma vozinha em minha cabeça. Seria a voz de minha consciência?
Vindo do corredor à minha esquerda, uma melodia inquietante chegou aos meus ouvidos e me arrepiou até a espinha. Euforia.
Mas que diabos seria isso? Na escola não havia viva alma! A única presença era da diretora, enfurnada em sua sala a dezenas de metros dali. Inesperadamente, uma lágrima rolou em minha face.
Diante da melodia, não tive escolha. Era como se alguém me pegasse pela mão e me guiasse em direção à música. No fim do corredor havia uma porta entreaberta. Não uma porta comum: era feita de madeira muito antiga, talhada com motivos campestres.
A cada passo minha euforia aumentava. A música estava ficando muito alta, as lágrimas rolando incessantes.
A três passos da porta vi que ela estava coberta de poeira. Era dominada por teias de aranha. Eu já soluçava quando dei mais dois passos e escancarei a porta misteriosa.
Me sentia dentro de um livro. A sala estava escura, iluminada apenas por raios de sol que entravam pela janela. O som alto não poupava meus ouvidos. Eu quase podia pular de tanta euforia.
Não entrei na sala, fiquei parada na soleira da porta. Vi minha imagem refletida num espelho de moldura dourada. Os cabelos louro-escuro presos a um rabo-de-cavalo, a camisa xadrez aberta mostrando o uniforme do colégio; os jeans claros, compridos, cobrindo um pouco a parte de cima do All Star preto e surrado. Acima de tudo vi meu rosto borrado pelas lágrimas.
Vindo de minha direita, uma nota afinada da melodia chegou-me aos ouvidos, forçando-me a virar a cabeça naquela direção.
Como eu não tinha reparado naquele homem, sentado ao piano? Era ele quem provacava-me com sua inquietante melodia, agora um pouco triste. Seus cabelos negros cobriam-lhe o rosto, me deixando apenas ver seus lábios finos e muito vermelhos.
A melodia chegara a seu ápce, exigindo enorme concentração do músico. Se prolongou por alguns instantes e foi encerrada.
Minhas lágrimas cessaram junto com a música, me deixando com uma dureza nunca sentida... como seu eu tivesse a certeza de que já o esperava... como se eu estivesse zangada com ele.
Meus lábios se abriram para dizer uma frase que não fora formulada por mim, somente foi libertada por minha língua desobediente:
- Está atrasado, Derek.
Seus lábios se abriram em um leve sorriso. O cabelo foi jogado para trás e pude ver um de seus olhos negros a me fitar. Seu olhar me trazia ainda mais arrepios.
Seus dedos corriam nas teclas do piano, a melodia recomeçou, calma e baixa.
Sentindo seu retorno, mais uma lágrima rolou, incontida. A euforia voltou.
Derek provocou uma nota muito aguda. Me fitou sorrindo atrevidamente com os olhos antes de dizer:
- Frenesi.

13 de outubro de 2010

Da calma


Tanto frio lá fora, tantas coisas perdidas. Tantas rachaduras, tantos tetos dispostos a desmoronar. Mas eu estou aqui, na calmaria inquebrável do meu eterno silêncio. "Será o silêncio como uma febre?"
Tudo em mim observa o abismo dos tempos, feito de luz e sombra, de melodias e silêncios. São ingredientes que giram como em um caldeirão, que prepara veneno...
O vento entra pela porta aberta... carrega algo negro.