20 de setembro de 2010

Constante

Quando tudo já caminha livremente ao acaso... no que você está se tranformando?
Quando os dias ficam vagos, e as horas secas correm e correm... no que você está se tranformando?
Quando os sonhos e sonhos do passado agora não existem.
Sua voz é calada pela melodia insistente dos tempos.
Você caminha rumo ao nada... seu lar é circunferência que gira, e gira, e gira...
Sísifo vem lhe fazer confidências.
E as migalhas não querem se reconstituir.


*Sísifo encarnava na mitologia grega a astúcia e a rebeldia do homem frente aos desígnios divinos. Sua audácia, no entanto, motivou exemplar castigo final de Zeus, que o condenou a empurrar eternamente, ladeira acima, uma pedra que rolava de novo ao atingir o topo de uma colina.

12 de setembro de 2010

Um refúgio, uma lembrança

A paisagem exalava uma paz nunca sentida, imensa. A alegria se expressava nos lábios de cada um de nós, inabalável.
Deixamos para trás tudo o que nos preocupava. Tudo ficou no chão de madeira, nas tantas lágrimas caídas naquele chão tão pressionado, que abrigou tantas e tantas mágoas, tantos gritos e temores.
As árvores tão calmas lembravam a paz infindável trazida para nós, a troco de nada. Descobrimos maravilhas, ouvimos o mundo. Tudo de mal já passou, enxergamos novos horizontes.
Tantas pessoas reunidas por um só querer. Amo tudo intensamente. Conheci tudo como em um sonho, redescobri verdades esquecidas.
Aquele momento se eternizou em minha memória. Talvez o mais especial de tudo o que já vivi. Tudo tão confortador.
Foi meu único refúgio. O único lugar de mentes tão iguais... inseguras, com seus demônios a vencer... e vencidos!
O que eu não daria para voltar àquele momento!
Na reta final, o melhor caminho descoberto.
Posso ver todos novamente, parados no tempo, como em transe. Eu os aprisionei comigo para todo o sempre.
Mas tudo perdido, nas profundezas da memória. Irrecuperável.
(Lembranças do PHN)


Como um ciclo, Parte III - Evaporar


O vento começou a soprar impaciente.
As pessoas apressadas, surgem pela rua. Todos voltando para casa: horário de pico.
Uma criança puxada pela mãe atolou o pé numa poça grudenta na calçada. De nada sabiam.
As nuvens, impacientes, se agrupavam cada vez mais. O céu estava negro.
A tempestade caía rápida, pesada. Lavava o ar sufocante de fim de tarde.
A chuva perdurou, inabalável por horas e horas.
De manhã o sol retornava à sua rotina. Na calçada só restava a mancha do que fora o resto da garota. Evaporara.
Ela cairia, evaporaria. Inatingível retornaria.
Era um ciclo, era uma lenda.

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9 de setembro de 2010

Como um ciclo, Parte II - Derreter-se

Estava ali sentada, pronta para tudo. Fazia também, parte da calçada.Um sorriso foi brotando mansamente em seus lábios. Estava acima do bem e do mal.
"Deixe-a te enlouquecer. Seus olhos irão penetrar em sua mente, mudá-lo por inteiro; não porque queira, mas porque precisa.
Ela o invadirá, com seu veneno benéfico."
Na calçada, o calor aumentava cada vez mais. Um topor tomou conta de seu corpo. Estava dormente.
Ela podia ver tudo o que quisesse, até então aprisionado na penumbra de sua mente.
Ela via a lama fétida da qual, como cada um, também pertencia. Via seu corpo inativo, afastado de qualquer interferência.
Então pode ver ela própria, a garota quente a escorrer. A derreter.
Os pensamentos vazavam de sua mente, escorrendo por seu corpo. O coração mole a pulsar lentamente, preguiçoso.
As lembranças intermináveis escorriam pelo seu rosto. O medo, gelado, vazava como lágrimas.
O amor lhe escapa pelas mãos.
Seus lindos cabelos negros, fia a fio, tornavam-se líquidos. Seus olhos mergulharam numa escuridão profunda. De nada dolorido, somente confortador.
O vento soprou, gélido sobre a calçada; sobre o que um dia, fora uma garota. Fora medo, fora risos, fora ódio, orgulho, nojo, alegria.

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3 de setembro de 2010

Como um ciclo, Parte I - De Repente

O sol estava a pino, o cheiro de terra seca era impregnante.
Seus pés descalços ardiam nas pedras ferventes da calçada. A rua estava deserta, tudo refletia o briho constante do sol.
A garota cessou
sua longa caminhada sentando-se em qualquer ponto da calçada. Colocou a cabeça entre os joelhos, pensando em toda sua trajetória. Apenas uma palvra se eternizara em sua mente.
Inclinou sua cabeça para trás, sentindo a brisa quente acariciar seus longos cabelos negros. Vislumbrou o céu, onde as nuvens cumpriam sua constante dança: choveria.
Então, como que em um choque, todas as lembranças daquele dia vieram à sua mente. Lembranças, tanto boas quanto ruins, não são muito bem aceitas se voltarem tão de repente. Mas aquelas lembranças não eram boas. A feriam, como navalha na carne. Sua cabeça queria explodir.
As lágrimas vieram sem esforços, com o gosto amargo da decepção.
Mas não só essas lembranças a fizeram estar ali, como que parada no tempo. Não. Tudo a levara até aquele ponto. Sentia que tudo já vivido unia-se em um só momento, em um só sentimento. Estar ali seria obra do destino? Talvez.
Nada a fazia diferente, mas algo acontecia. Talvez teria subido mais um degrau em questões de compreensão. Difícil de pensar. Mas sentia ainda, algo mais... não um vazio, nem mesmo a satisfação. Era como se todos os sentimentos, todas as lembranças, todos os temores de hoje e ontem de toda a humanidade estivessem dentro de seu coração. Era como se todas as mentes se concentrassem naquela mente frágil, ali sentada naquela calçada quente, para acabar com tudo; dar um novo passo, rumo ao futuro, rumo ao infinito.

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Caminhos


Menina,

um adeus
um momento
um abraço
Um olhar.

Lágrimas amargas guardam segredos
conversa, sorrisos, contatos
Uma vida
há tanto tempo compartilhada.

Menina,
quando o tempo tomar meu rosto
como um líder toma sua causa
nada saberei de ti.

Menina,toma teu amor
aceita-o como a um filho
Enfrenta a dor que lhe corrói
com a rotina das horas
Enfrenta o mundo
enfrenta a massa.

E quem sabe Menina,
sobreviveremos em meio ao caos,
em meio às flores banhadas em lágrimas.

Sobreviveremos,
Eterna Menina.

27/07/10

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