11 de julho de 2018

Casinha

na mesma cidade
na mesma época
com a mesma idade
a mesma era
das mesmas aspirações
e os mesmos pensamentos...
estamos aqui
agora, nesse mesmo mundo
e nesse mesmo frisson

mas não nos vemos
estamos juntos
apenas em pensamento e lembrança
andando nos campos da memória
cabelos ao vento, sorriso no olhar
lendo livros e assistindo filmes passados
relembrando conversas e momentos calados

andamos juntos na imaginação
pelo campo, pela montanha, por entre as árvores
chegamos a uma casinha
de madeira, com flores nas janelas

eu amarro meus cabelos
eles estão longos em meu sonho
como em outrora
quando eles caiam naturalmente
e me faziam outra pessoa

entro na casa
você acende as luzes
passa um café
nos sentamos na mesa
conversamos, rimos
lembramos... imaginamos

a noite chega
as estrelas brilham no céu
você as conta
e encontra
leões, princesas e castelos
imaginamos que as estrelas
ditam nossa vida e nosso futuro

mas já é tarde
você apaga as luzes,
fecha as portas e janelas
e nós partimos
cada um para o seu lado

e agora nós estamos de novo
sós, em meio a todos
pensando nos campos ao longe

somos de novo dois estranhos
que vivem tão próximos
mas tão distantes
que não se vêem há anos.

eu pedi um favor
a todos aqueles
que muito me ajudam
pedi que continuassem me guiando
e que se a distância entre nós
tiver mesmo que diminuir,
que eu te veja
que como as estrelas,
seja um sinal
que brilham no meu quintal.

(Gláucia Minetto Martins)

Cavalo de guerra


~ Poema em homenagem ao filme Bicho de Sete Cabeças (2000) ~

Há um cavalo de guerra
vivendo no fundo do meu peito.
Ele relincha a cada cada vez que penso
e os pensamentos vêm à toda hora.
Sentado no chão frio
escorado na parede de pedra
abandonado, levanto meus braços
acima da cabeça...
O cavalo se desenha então
na sua dança de sobrevivência.
Tanto, tanto
que seus cascos raspam a madeira
um dia surgirá uma faísca
e eu virarei poeira.
Lutar por dentro
e calar por fora
esperando por um momento
que tudo acabe
e do meu peito o cavalo se vá
para correr nos campos.
Meu interior será então habitado
por esperança e agrado.

(Gláucia Minetto Martins)

Em nossos olhos

nos teus olhos eu vejo a minha casa
no teu ser eu costuro a minha alma
em teus braços repouso eternamente
atada às tuas mãos caminho pela estrada

nos meus olhos brilham muitas dores
nos átomos pulsa a energia da vida
em minha mente navega o nosso barco
e assim, no tempo construímos nossa história

(Gláucia Minetto Martins)

10 de julho de 2018

Um pássaro no céu

existem algo mais poético
que um pássaro voando no céu?
não precisa ser um céu azul
e pode ser um simples pássaro

poesia é uma definição
que limita essa cena
é algo que transcende
que apoia todo
e qualquer pensamento

não sei exatamente o motivo...
os pássaros são livres
o céu é imenso
nossas mentes quebram barreiras
nossos espíritos a tudo sentem

não há como explicar
só sei que é por isso,
é por ver um pássaro voando no céu
que estamos aqui

é por comer um lanche
é por um abraço
é para aprender a amar
e a perdoar
é para transcender
e entender
sentir na carne
a carne que nos faz.

(Gláucia Minetto Martins)

A arte de existir

vivo desculpando a mim mesma
vivo sorrindo pelos cantos
vivo em altos e baixos
em mantos nobres ou farrapos

fico contigo esta noite
fico comigo em meu mundo
permaneço vivendo em detalhes

a morte está nos detalhes
a vida está na verdade

exploro vastos castelos
visito pobres campos
canto do alto da torre
escalo ao alto das árvores

tenho medo do escuro
o sol ofusca os meus olhos
existem lágrimas de alegria
existem aquelas que vêm da tristeza

altos e baixos
montanhas e vales
vida após vida
história após história

eu sobrevivo
eu revivo
eu respiro

eu sou
eu continuo
eu sinto

eu nunca termino

(Gláucia Minetto Martins)

Tudo está bem


~ para O.N. 
in memorium ~

sei bem
que a vida está longe de ter um fim
sei bem
que a felicidade está longe da tristeza
mas que ambos são contrastes
que nos ensinam a caminhar

eu espero
que você esteja em um bom lugar
em uma boa vibração
que tenha visto coisas lindas
que tenha visto luzes e ouvido os anjos

a sua jornada
não acaba aqui
como a minha
e tudo está sempre bem
tudo sempre dará certo
tudo já deu certo

não importa o agora
porque o tempo
não realmente existe
mas eu gostaria mesmo de saber
onde está sua consciência

você passou
rapidamente pela minha vida
mas deixou alguns significados

eu fui dura
mas fui íntegra
e sei que ambos tivemos 
o que precisávamos

porém existem 
ligações maiores
talvez passados distantes
dos quais não podemos
nos lembrar agora

eu espero apenas
nessa minha urgência
de ser humano aprendiz
que você esteja bem
e que alcance a luz...
espero que já tenha alcançado

obrigada por ser uma pequena parte
da minha existência
por ter inspirado alguns poemas...
não vou julgar
vou tentar aprender 
com a tua passagem

que a luz continue sendo
o que te guia...
que as verdades
continuem se revelando 

tudo está bem.

(Gláucia Minetto Martins)

4 de julho de 2018

A fênix do fim do caminho


Eu nunca realmente acreditei
eu nunca realmente vivi
nunca lhe vivi
nunca vi
os teus olhos tão de perto de mim

Eu muito fugi
e muito me lembro também
do primeiro instante
dos primeiros anos
do primeiro amor

Eu sempre duvidei
pois aprendi com a vida
que as aparências
às vezes são camuflagens
de amores baratos,
passados abandonados

Sempre achei que tudo era um capricho
e ainda acho...
Mas por vezes me permito acreditar

Às vezes me permito sonhar
mesmo sabendo que a realidade
passa longe como um pássaro
que voa para o seu ninho
no outro lado do planeta...
Mesmo sabendo que o cotidiano
traz amor verdadeiro,
mas se não for para realmente ser
acaba sendo insosso

É por isso que lhe entendo
no fundo mesmo, eu lhe entendo
eu sei que ninguém trocaria
o canto de um lindo pássaro
bem preso na gaiola
para procurar outro imaginário
no centro da terra.

Essa jornada seria dolorosa
pois os pés doem lembrando
do terreno de outrora...
Mas o olho brilha imaginando
a fênix do fim do caminho

Mas você sabe
que a fênix pode não ter um belo canto
e se assim for,
o caminho de volta já estará perdido

Não me permita sonhar
se eu sei que esse caminho
você jamais irá trilhar...
engula as gravuras
esqueça os cheiros
e os teus próprios sonhos
se os teus pés não tem coragem
de atravessar essa ponte

Não me permita acender essa centelha
lembrando de algo que nunca foi real...
Não mexa com a minha cabeça
se a sua deitará ao lado de outra

Esqueça-me
vença-me
olha-me, mas siga em frente

Se um dia seus pés forem fortes,
se um dia
nada do que é hoje presente
der mais certo,
siga o caminho...
Caso eu não tenha encontrado
minha própria fênix

Se no fundo do teu peito
a felicidade já não tem propósito
a união já não faz sentido...
Procure

Eu estou viva, ainda
ainda canto, falo e penso
com esse corpo e esse jeito...
Ainda estou viva

Você mexeu com a minha cabeça.

(Gláucia Minetto Martins)
14/06/2018