4 de abril de 2018

Ovelhas

lost sheep. by ursulav

nunca me esqueço
nunca pereço
jamais relevo
cada passo da história
cada pequeno relevo.

a vida que chega
enlouquece-nos
abate-nos
acostuma-nos
acomoda-nos

mas lentamente
encontramos a direção
aprendemos as lições
respirando e sobrevivendo

são olheiras na pele fina 
são ovelhas, ao trabalho todo dia
mas o trabalho é uma lei da vida
como o karma
como ação e reação...

não sabemos muito bem
o que aqui fazemos
não sabemos muito bem
porquê sobrevivemos

sabemos realmente
amar 
sonhar
lutar
caminhar

sabemos nossa identidade
criamos nossos contextos
e vamos descobrindo
nossas missões,
novas missões.

Cheiro de vó



                                                                                                        para Joana

sentada em um banco qualquer
em uma rodoviária qualquer
sinto subitamente
um cheiro que me lembra você
olhei para os lados
ninguém parecido...
não sei se foi visita tua,
emoção provocada
ou alguém que passou.
mas que saudade...
onde será que você anda agora?
continuando a sua jornada,
refletindo em algum lugar,
nos olhando,
rezando,
ou esperando?
é estranho pensar
que a sua forma nunca será a mesma
eu nunca mais serei sua neta
não nesse contexto.
quando eu te reencontrar
haverá cheiros, sentidos, ou apenas luzes?
nossa história nunca termina
teu amor e proteção nunca findam.
como pessoa, a noção de sentimento
é um abraço
como espírito não sei o que deve ser...
então te envio
um abraço carnal ou espiritual
um afago ou um feixe de luz.

(Gláucia Minetto Martins)

28 de fevereiro de 2018

Aquarela

Meus pés percorrem a estrada de terra
Estão vermelhos
Pintados de argila
Terra roxa.

O pôr-do-sol honra a vida 
Com sua paleta de cores
Luz roxa
Laranja, amarela.

No meu peito
Abre-se um leque de tons
Enquanto olho meu caminho
São mil cores incandescentes
Queimando a cada bater do meu coração.

Não olho para trás
Apenas para o sol.
A tarde já está a findar
A noite logo vai chegar
Minha casinha me espera
Ao fim da estrada
Com fogão de lenha
E café quente.

Continuo o meu andar
Como prece a rezar
Cantando a cada passo
As belezas dessa roça.

Lá vem ela
Minha casa, tão modesta.
Abro a porta
E de lá de dentro
Saem as crias
Suas risadas a acalentar os ouvidos
E a esconder qualquer pranto.

Crianças com outras mil cores
Dentro do peito
Pés descalços
Também vermelhos
Bochechas rosadas...

Esse é o lugar para onde
Todos os dias eu volto
Todos os dias, sinto
E amo ainda mais a vida.

Qualquer estrada que leve a elas
Vale a pena,
Qualquer momento aqui presente
Tinge a alma de aquarela.

(Gláucia Minetto Martins)

De novo, não há

de novo
proximidade não há
de novo
teu eu exposto
não deixa
meu peito exposto
se enamorar.
teus braços estão estirados
em alguma vitrine
ao longe de mim.
de novo
o meu desgosto
retorna à boca,
no fundo da língua.
de novo
o teu gosto
é algo distante
e o nosso viver é imaginário.
quando foi que tudo deixou de ser?
nada nunca mesmo foi.
que saudade!
de ser tola e pensar em ti
de ser forte e pensar em mim
de sentir algo novo
de esperar pela felicidade
dos teus dias junto aos meus
que saudade!

(Gláucia Minetto Martins)

27 de fevereiro de 2018

O caminhar no deserto


Há muito tempo me perdi
nas areais do tempo
nas amarras da solidão.
O vento agora sopra
e meus cabelos insistem
em irromper minha visão.
Andando nesse deserto 
Só mesmo ele, o vento
conversa comigo.
Ele sopra coisas
que eu preferia não ouvir...
São canções de outras eras,
sentimentos infindados,
beijos não trocados...
São navios naufragados
na imensidão da memória.
Meus amores há muito ficaram...
Gravados nas paredes do passado,
ainda brilham suas cores à luz das tochas.
Se o tempo não realmente existe,
então eles perduram
e o meu caminhar solitário
é só um detalhe,
uma pequena contradição.
Não sei onde vou chegar
talvez até outras vidas,
à alguma tribo,
ou quem sabe,
nas pirâmides do Egito.
Um momento, um instante...
Um bater do coração
intrínseco ao bater das asas de um pássaro
que apareceu no céu do meu deserto...
Imigrando, ele também está
para as montanhas,
para o futuro,
para tudo que lhe resta... 
Para o tudo ou o nada.
Ele, também nômade
procura pela saciedade
dos seus desejos
e pela redenção
de suas misérias e pecados.

(Gláucia Minetto Martins)

25 de janeiro de 2018

Abelha


Que indecisão!
Uma abelha pousou no meu ombro direito
Uma rosa foi levada pelo vento ao esquerdo.

Um amor passou por perto
Fumando um charuto
E eu com o isqueiro
Chamei-o

Dou-lhe o fogo?
Envenenando teu belo corpo?
Ou escondo-o no fundo do meu bolso
E passo despercebido até o fundo do meu calabouço?

Sou abelha, procuro flores e lhe dou mel
Ou floresço nos campos?
Nesse lero-lero com meus botões 
Vou lhe dar apenas fel.

(Gláucia Minetto Martins)

Saudade-ilusão


que saudade de te amar e te querer
que saudade da ilusão de você...

(Gláucia Minetto Martins)