25 de janeiro de 2018

Abelha


Que indecisão!
Uma abelha pousou no meu ombro direito
Uma rosa foi levada pelo vento ao esquerdo.

Um amor passou por perto
Fumando um charuto
E eu com o isqueiro
Chamei-o

Dou-lhe o fogo?
Envenenando teu belo corpo?
Ou escondo-o no fundo do meu bolso
E passo despercebido até o fundo do meu calabouço?

Sou abelha, procuro flores e lhe dou mel
Ou floresço nos campos?
Nesse lero-lero com meus botões 
Vou lhe dar apenas fel.

(Gláucia Minetto Martins)

Saudade-ilusão


que saudade de te amar e te querer
que saudade da ilusão de você...

(Gláucia Minetto Martins)

A menina da foto


uma fotografia
um tiro no escuro
um clarão no fim do túnel
que atingiu meu coração
e os estilhaços foram lançados casa afora
pela janela que ficou aberta
para a rua lá fora 
onde ele também andava 
como quem não quer nada
e o seu mais puro eu
fisgou tanto eu quanto ele

---

a guerra chegou
súbita como o meu amor
e eu parti para encontrar 
o que há de ser encontrado
mas não antes de uma tesoura
passar pelo liso da tua fotografia
e levar comigo a imagem tua

agora você vive comigo
teus lábios
teu rosto
teu cabelo
no meu bolso
e às vezes em meu pescoço

---

a menina da foto existe em mim
assim como a carne em osso.

---

quando a guerra tiver fim
espero que ela ainda exista
além dos meus horizontes
para que possamos criar 
nossos próprios horizontes.

(Gláucia Minetto Martins)

Poema denso


você não pode passar por cima de mim
você nem ao menos passará por mim.
desaparecerei dos álbuns de fotografias
os traços do meu rosto se apagarão dos teus papeis.

os meus caminhos divergirão
a minha estrada subirá
e descerá
enquanto a vida chega e o crescimento também.

você pensa que tudo é como quer?
que o teu ego inflado deve ser alimentado?
você pensa que há uvas e mulheres aos teus pés?

você muito pensa
muito aparece
muito quer humilhar

mas amar,
nunca ama realmente.

nunca mais amou.

(Gláucia Minetto Martins)

30 de setembro de 2017

O vasto e belo abismo


estou deitada
na beira do abismo.
o mais lindo e vasto abismo
composto pela vida, 
pelas verdades, 
pelo universo e tudo mais.

estou apenas espiando
de olhos meio fechados
temendo o que verei lá embaixo.

mesmo após todas as coisas que acredito
após alguns anos de pensamentos e credos
verdades e sentimentos,
eu estou apenas espiando.

no abismo há uma luz roxa,
há estrelas.
dele emanam sopros
que trazem bons sentimentos
amor, sabedoria, plenitude, unidade.

as pessoas que muito sabem
de olhos inteiramente abertos,
também espiam o que se passa 
na profundidade disso tudo
que o nome "vida" limita
e o nome correto
não sei dar.

as crianças
nascem perto da beira
podem voar sobre a vastidão
lembram de coisas que viram e ouviram
mas que estão adormecidas no espírito.

já as crianças que cresceram
e se esqueceram das estrelas,
são pessoas amarguradas
estacionadas
fissuradas.

apenas andam, bem longe da beira
constroem suas casas empilhadas
o mais distante possível.
cortam as árvores
matam uns aos outros.
não amam
não plantam, nem colhem.

é preciso recuperar
o sentimento original,
a bondade,
confiança e gratidão.
é preciso deixar-se levar
pelo chamado quase mudo e sutil
que sentimos em nossos corações.

é preciso voltar ao abismo
e não apenas espiar.
é preciso ter coragem para saltar.

o que vem depois
é tudo, menos a morte.

(Gláucia Minetto Martins)
Imagem - Abyss, por Igreeny


29 de agosto de 2017

Perdoe-me


perdoe-me se não sei viver
se não sei andar
em cima desses muros
ou em cima desse altar

perdoe-me se no meio do turbilhão
eu vou me perdendo
esquecendo o caminho
- que eu nunca soube

perdoe-me por ter entrado assim
como quem nada quer
como quem nada espera
como quem tudo pode

perdoe-me ter mordido a isca
provocado faíscas
e depois partir

perdoe-me se fui covarde
se fui selvagem
se fui tudo ou nada
se fui vã
ou se fui sã

perdoe-me por depois de tanto tempo
eu continuar sendo tão cheia de nuances
e ao mesmo tempo tão vazia

perdoe-me se eu ainda lembro,
mas no fim continuo na minha casca
na minha casa intransponível

perdoe-me por ser eu mesma
por ter brincado de amar
por ter vivido
por ter fingido viver

perdoe-me por não começar
perdoe-me por não terminar

perdoe-me.

(Gláucia Minetto Martins)

2 de junho de 2017

Sobre tudo, sempre sobre tudo

Não há definição do ser
Não há porquê
Só há instante e lembrança
Sentimento e convicção.
O beijo que ficou pra trás
Já não existe...
A vida que ficou pra trás
Existe agora em outro lugar.
A casa que se constrói
Ficará para abrigo
Para outros mil instantes.
Eu continuo sendo eu
Mas já sou outra...
Uma duplicidade
Uma alma em várias partes,
E em um coração,
E em um sentimento.
As minhas certezas há muito já se foram
As minhas verdades permanecem...
E entre elas
Eu sei
Que devo aprender,
Que devo aceitar,
Que devo amar,
E um dia voltar
Pro outro lugar.
Aquele para o qual
Somos aqui preparados.
A vida é uma só
Somos todos um.
Todas as verdades serão reveladas
Quando as dúvidas forem sanadas
Pelo sentimento de união e existência.

(Gláucia Minetto Martins)